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Desconstruindo Transfobia, parte 1: Reciclagem de Preconceitos

Atualizado: 31 de Out de 2019

Foi emitido, respetivamente, na TVI e na TVI24, no dia 29 de outubro de 2019, uma reportagem e debate sobre as vivências das pessoas trans em Portugal.


Durante o debate estiveram presentes André Carvalho (homem trans), Maria Helena Costa e Tiago Aragão (dois representantes de um movimento transfóbico), Décio Ferreira (cirurgião), Paula Allen (dirigente associativa da Associação plano i) Manuel Monteiro (autor da reportagem) e Manuel Garcia (jurista residente do programa). A moderação foi de Alexandra Borges.


Com este texto tentarei desconstruir alguns dos argumentos dados por Maria Helena Costa, com o objetivo de esclarecer quem ainda possa achar que ela tem razão.

Se quiserem podem ler aqui uma desconstrução de alguns dos "factos" dados pela Maria Helena Costa durante o debate.


Muitos dos pontos levantados por Maria Helena Costa são reciclados de argumentos homofóbicos que já foram discutidos e refutados ad nauseam. Um deles é a preocupação com os WCs. Há uns anos eram os gays que iam assediar homens nos WCs masculinos, ou lésbicas que assediariam mulheres nos WCs femininos. Hoje em dia são as pessoas trans que assediam outras pessoas nos WCs.


As pessoas trans usam, e sempre usaram, WCs de estabelecimentos públicos. Reconhecer que isto acontece não vai causar um aumento da quantidade de casos de assédio e predação sexual, e estar a afirma-lo é puro preconceito, ignorância e propagação de medo infundado. Se alguém entra num WC com a intenção de assediar outras pessoas, deve ser punido, existindo mecanismos para tal, mecanismos esses que não se dissolvem se reconhecermos que as pessoas trans frequentam WCs de estabelecimentos públicos. Normalmente, casos de assédio em WCs que envolvem pessoas trans têm as pessoas trans como alvos e vítimas do assédio, não como predadores.


Também se expressou preocupação com o facto mitológico de haver crianças que, por saberem da existência de gays, vão elas próprias "virar" gays. Perdão! Os argumentos são tão similares que é fácil uma pessoa trocar as palavras. Queria dizer, expressou-se preocupação com o facto mitológico de haver crianças que, por saberem da existência de pessoas trans, vão elas próprias "virar" trans. Como se fosse possível converter alguém em gay, hetero, bi, homem, mulher, ou qualquer outra orientação ou género que não seja o seu.


Numa tentativa de parecer "não tão má" afirma que não tem nada contra "pessoas que têm o problema do André". Porque há "transsexuais bons" e "transsexuais maus". Os bons trans, aqueles que "parecem" ser o género que afirmam ser, aqueles que, se quiserem, se integram na sociedade sem levantar muitas ondas, aqueles que aparentam encaixar dentro dos critérios de diagnóstico decididos e impostos por profissionais de saúde. Eu não conheço o André para saber se ele realmente encaixa neste perfil, mas foi este o tipo de discurso que estava implícito nas palavras da Maria Helena Costa. É bastante comum ouvir este tipo de discurso, como se houvesse "bons" e "maus" elementos de uma população marginalizada. Assim como há os "bons gays" (aqueles que parecem heteros, não vão às marchas e não mostram a cara no Grindr) e os maus gays (as bichas histéricas que vão reivindicar direitos), também há os "bons trans" e os "maus trans". São "bons" de forem iguais à norma, ou se tentarem sê-lo.


Este tipo de discurso é um aproveitamento da vulnerabilidade das pessoas trans que querem ser aceites e integradas, fingem que nos aceitam se obedecermos a certos critérios e fazem-nos virar uns contra os outros. Quem é "mais aceite" começa a culpar quem é "mais diferente" de estar errado. Começam a surgir divisões entre a população trans, com os "maus trans" a serem culpabilizados pela marginalização de todas as pessoas trans. Porque "se tu fosses normal como eu as pessoas aceitavam-nos melhor", ou "a culpa é tua que és assim excêntrico, se fosses normal não nos discriminavam".


Mas mesmo isso é condicional, e por muito que uma pessoa aparente ser "normal", nunca vai deixar se ser "um dos outros". Os critérios de aceitação estão sempre a mudar conforme o que é conveniente para o discurso do opressor. Durante o debate foi possível ver isso a acontecer em tempo real, uma vez que não demorou muito para que o véu caísse e acusassem o André de "nunca deixar de ser mulher" porque ADN. E se não fosse o ADN, iam ser os órgãos reprodutores. Ou a forma dos genitais. Ou as hormonas. Ou a estrutura óssea. Ou a socialização. Ou o que fosse mais conveniente naquele momento na discussão.


Por fim, surgiu, o argumento de isto ser tudo uma conspiração "dos gays e lésbicas" para tornar as crianças todas homossexuais e trans, confundir toda a gente, com o objetivo final de reduzir a taxa de natalidade. Porque é que os gays e as lésbicas querem fazer tal coisa é algo que nunca é esclarecido, mas aparentemente querem. Alguém devia informar a Maria Helena Costa de que as pessoas LGBTI+ podem procriar! As pessoas LGBTI+ têm, tiveram e vão continuar a ter filhos. Aliás, duas frentes da luta pelos direitos LGBTI+ passam, precisamente, por 1) alargar o acesso a técnicas de procriação medicamente assistida para todas as pessoas, e 2) acabar com as esterilizações forçadas das pessoas trans.


Foi curioso ver que em nenhum ponto a Maria Helena Costa negou que apoiava estas teorias da conspiração, afirmando convictamente que o estado português, a Organização Mundial de Saúde, o parlamento europeu e a assembleia parlamentar do concelho da europa estavam "tomados pelos gays e lésbicas" e que estava tudo a conspirar para impor uma espécie de programa de redução de natalidade a nível internacional. A convicção ideológica está claramente a ocupar o espaço vazio deixado quando a noção a abandonou.


O grau de desfasamento com a realidade seria hilariante, caso não estivesse a influenciar pessoas para se oporem aos direitos e dignidade das pessoas trans.


Há muitas partes da entrevista que dariam para desconstruir mais a fundo, mas tal provavelmente ocuparia um livro.


Resta agradecer ao André pela enorme paciência e coragem para estar presente no debate e dar-lhe os parabéns e um agradecimento pelas suas intervenções.


Aqui podem ler uma desconstrução de alguns dos "factos" dados pela Maria Helena Costa durante o debate.

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