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A Importância de um Nome

Texto por: D.


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Explicar a um amigo, a um familiar ou mesmo a um professor a importância de um nome não é um tarefa fácil. Na verdade, acredito que o nome se inclui naquelas pequenas coisas que só quando não temos é que lhe sabemos dar o devido valor. Acontece, no entanto, que é uma coisa que as pessoas têm por tão certa que dificilmente saberão reconhecer o quão importante é nas nossas vidas. Dificilmente a irão perder para experimentarem essa sensação em partes parecida à saudade que temos de uma coisa tão simples como respirar livremente e que só damos valor quando um constipação nos tira esse prazer.


Mas não é só o nome que se inclui nesta categoria. Todos nós que sempre pudemos distinguir as cores nunca saberemos a forma como um daltónico gostaria de conseguir fazê-lo. Todos nós que sempre andámos não nos apercebemos da sorte que temos ao nunca termos evitado ir a um lugar sem facilidades de acesso para cadeiras de rodas. No fundo, quando temos um privilégio, ele dificulta muito a possibilidade de vermos que ele ali está, a facilitar-nos a vida no dia a dia.


De exemplos mais banais a exemplos mais sérios, a verdade é que o nome se insere algures entre estas duas categorias - da constipação e da necessidade de uma cadeira de rodas para deslocação. Certo é que neste ponto todos, independentemente de serem trans ou cis, têm já uma ideia do que falo por já terem com certeza sofrido com uma constipação assim como a maioria, se sempre andou, terá consciência da impossibilidade de entender a 100% como uma pessoa que nunca o conseguiu (ou que conseguia e deixou de ter esse privilégio) se sente diariamente quando confrontada com obstáculos como os degraus de uma escada. Certo é que, se nunca iremos compreender totalmente como essa pessoa se sente, teremos de lhe dar voz para, ao ouvir o seu testemunho, podermos ter a empatia necessária para colaborarmos com um mundo que ajude a que todos nos sintamos mais confortáveis.


Compreendido este ponto, e deixando o exemplo ilustrativo sem o desenvolver (precisamente por nunca ter passado por tal situação e não saber totalmente como estas pessoas se sentem), passemos de seguida à questão do nome. Sobre este ponto, tenho já alguma legitimidade para falar. E a verdade é que, para ser sincero, compreendo em partes a dificuldade de algumas pessoas em entender a real importância que um nome pode ter.

De facto, quando andava no 4º ano, exigia aos meus colegas que me tratassem por José/Zé. Mas sempre longe dos professores. Na minha jovem cabeça carregada de auto-censura, eles não iriam compreender. E, de facto, não compreendiam. Nem em 2004 nem em 2016, quando 12 anos depois, já plenamente consciente da minha identidade masculina, pedi aos meus professores universitários que me tratassem por um nome diferente daquele que constava na folha de chamada. Não se tratava de uma criancice da idade, ou não se teria mantido ao longo dos anos até depois da maioridade (quando, curiosamente, em lugar de me acharem criança demais para poder de alguma forma saber quem era, passaram a questionar o porquê de me ter assumido trans tão tarde - definitivamente, aos olhos da sociedade, nenhuma idade é "certa" e sim apenas mais uma desculpa para deslegitimar a identidade alheia). Quero dizer com isto que, se a auto-censura existia na minha própria cabeça que sentia na pele tudo o que estava a passar, como as outras pessoas que nunca o sentiram poderiam entender? Quando eu próprio, do alto da minha educação conservadora, olhava com estranheza a forma como a sociedade ridicularizava a mulher trans que exige ser tratada por um nome género femininos? Podemos dizer portanto que eu próprio precisei de sentir na pele o sofrimento de ser chamado por um nome feminino, depois de saber quem era, para finalmente compreender que a sociedade se limita a olhar do alto do seu privilégio para estas questões.


Mas esta minha experiência pessoal não legitima que familiares, amigos, professores ou qualquer profissional no exercício das suas funções possa achar-se no direito de desrespeitar o pedido de uma pessoa trans para ser chamada por um nome diferente daquele a que estavam habituados ou diferente daquele que consta em documentos oficiais. Até porque, como concluímos lá atrás, não conseguimos compreender totalmente alguém que está numa determinada situação, do alto do nosso privilégio, enquanto não a experimentamos na pele. E se não questionamos, quando confrontados com as dificuldades do outro que não tem o privilégio que temos, a forma como coisas banais para nós se mostram verdadeiras tormentas para ele, porque fazê-lo quando pessoas trans nos confrontam com o privilégio que temos ao sermos chamados por um nome com o qual nos identificamos?


Quando finalmente compreendemos o que se passa connosco, a maior parte das vezes inicia-se um processo de perda progressiva do privilégio que é sentir que o nome pelo qual somos chamados é nosso, que temos uma identificação intrínseca com aquela palavra ao ponto de quando nos dirigem a pergunta filosófica "Quem és tu?" respondamos de imediato "Sou o/a (nome)". Isto acontece porque aquele nome próprio carrega com ele mais do que um nome - carrega uma identidade, uma história, uma vivência do nosso "eu" que tivemos até àquele momento. Ainda que a identificação não tivesse sido plena até então, a incompreensão acerca do que se passava connosco próprios levava a que o aceitássemos na falta de melhor opção. O mesmo não acontece quando tudo começa a fazer sentido nas nossas cabeças e o nome que até então suportámos torna-se progressivamente um peso doloroso de um passado que queremos ver superado. Não surpreende, portanto, que quando compreendemos que a nossa identidade é diferente daquela que nos foi imposta até ao momento em termos de género, um nome feminino ou masculino passe a significar mais do que uma mera palavra: é a sociedade a reforçar uma imposição.


Chamar um pessoa trans pelo nome que lhe foi dado à nascença aquando da imposição social de género é mais do que um mero engano inofensivo. É deslegitimar a capacidade da pessoa saber quem é - é dizer que a pessoa não sabe o que diz quando se afirma ser do género X. É reforçar preconceitos relativos às pessoas trans que um bom professor ou profissional em qualquer área deverá evitar em prol de uma sociedade justa e igual para todos. Portanto, quando confrontados com um pedido de um amigo, familiar, aluno, paciente ou cliente no geral, façamos um exercício de empatia - se nunca soube como é estar no lugar daquela pessoa, com que legitimidade é que a julgo? Com que legitimidade é que a desrespeito?


Nota: importa salientar que os exemplos dados não procuram comparar ser trans a uma doença ou deficiência. Apenas se procurou reforçar uma posição com recurso a exemplos de privilégios que demonstram de forma mais marcante as diferenças devidas a situações que todos reconhecem como inultrapassáveis por mera vontade dos indivíduos - ninguém passa a andar apenas porque quer tal como ninguém deixa de ser trans ou de se sentir incomodado com um nome apenas porque quer.

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