Mitos, Estereótipos e outros Preconceitos

Existem inúmeros mitos, preconceitos, estereótipos e outras ideias erradas sobre as pessoas trans. De seguida estão apresentados alguns desses mitos, com os respetivos esclarecimentos.


Isso é uma doença mental, devia ser curado com um psiquiatra.

No passado, foram feitas imensas tentativas de "curar" pessoas trans através de terapia ou medicação psiquiátrica, sem sucesso. O consenso clínico atual é o de que ser trans não é uma doença mental e, portanto, não deve ser tratado como tal. 

Isso são homens que pensam que são mulheres, é como ter anorexia, as pessoas pensam que são gordas mas na realidade são magras.

Não existem evidências clínicas de que ser trans tenha alguma relação com anorexia (ou qualquer outra condição semelhante). Uma pessoa que sofre de anorexia tem uma visão distorcida do seu corpo, percecionando-o de forma errada e pensando que tem mais peso do que tem na realidade. Pelo contrário, quando uma pessoa trans precisa de fazer alterações ao seu corpo, tal acontece porque a pessoa tem noção de como o seu corpo é, e tal causa-lhe mal estar. Além disso, os tratamentos e terapias aplicadas em pessoas com anorexia não resultam com pessoas trans.

Por muitas cirurgias que façam, ninguém consegue mesmo mudar de sexo.

Para isto é necessario definir o que é que "conta" como "mudar de sexo". Há quem fale em genitais, outras pessoas falam em cromossomas, estruturas neuronais, configurações hormonais, tipo de gónadas, etc. Poder-se-ia contra-argumentar com base nos casos de pessoas que não são trans mas que, por algum motivo, têm configurações genitais atípicas (variações congénitas, ou resultados de acidentes, por exemplo), variações cromossomais diferentes de XX ou XY, ou qualquer outra variação natural das características sexuais primárias ou secundárias. No entanto, independentemente do ponto de referência, é raro as pessoas reconhecerem que as noções de "sexo" e "género" sao altamente complexas, não sendo adequado reduzi-las a uma única característica anatómica. As categorias que usamos para catalogar pessoas como "homem" ou "mulher" são mais fluídas do que aquilo que normalmente pensamos, existindo variações enormes tanto intra- como inter-categorias. Estar a impor definições rígidas acaba por ignorar todo um leque de variações, sendo prejudicial não só para as pessoas trans como para as pessoas que, não sendo trans, não encaixam nessas definições rígidas. 

As pessoas trans nunca conseguem realmente tornar-se homens ou mulheres “convincentes” e as outras pessoas vão sempre perceber que são trans.

Esta frase costuma surgir acompanhada de "eu não conheço ninguém trans" ou "eu consigo sempre saber quando alguém é trans". Na realidade, existem imensas pessoas trans que estão perfeitamente integradas em sociedade sem que ninguém se aperceba que são trans. Essas pessoas, precisamente por ninguém se aperceber que são trans, nunca entram no "radar" das pessoas como trans, e portanto as pessoas continuam a pensar que não conhecem ninguém trans. Quando conhecem alguém que é visivelmente trans, ficam a pensar que só essas pessoas são trans, criando-se assim um enviesamento na perceção das pessoas. Como só vemos as pessoas que são visivelmente trans, pensamos que todas as pessoas trans são visíveis, e nem nos lembramos de todas as pessoas que são trans mas que não são visíveis como tal.

As pessoas que não conseguem/querem ser homens ou mulheres “convincentes” não são mesmo trans.

Este serve como um contra-ponto à frase anterior. Há pessoas trans que são visivelmente trans, seja por não conseguirem não o ser, seja por escolherem sê-lo (ou porque simplesmente não se importam em sê-lo). Estas pessoas não são "menos" trans ou "menos" homens ou mulheres por causa disso. Independentemente da aparência de alguém, a identidade da pessoa e aquilo que a pessoa é internamente não muda.

Todas as pessoas trans sabem que o são desde crianças.

Muitas sabem, muitas não. Uma pessoa pode aperceber-se que é trans em qualquer idade, seja por terem passado anos em negação, por não terem acesso a informação, por terem receio de explorar as suas questões identitarias, ou por qualquer outro motivo. O percurso de auto-descoberta é um percurso muito pessoal e complexo, portanto é normal que cada pessoa o faça ao seu próprio ritmo. 

As crianças e adolescentes não têm maturidade suficiente para saberem que são trans.

Como está dito na frase anterior, há pessoas que sabem que são trans desde crianças. O facto de serem crianças ou adolesentes não impede que tenham uma noção de quem são, com que género se identificam e de que forma se sentem melhor. Alguns profissionais de saúde argumentam que a identidade de género pode ficar bem definida durante os primeiros anos de vida, pelo que é expectável que algumas pessoas trans já saibam que o são desde essas idades. 

Mas essa pessoa nunca mostrou sinais de ser trans no passado!

Quando falam em "mostrar sinais", as pessoas normalmente referem-se a comportamentos "não conformes" com o género atribuído à nascença - ou seja, falam em casos de rapazes a expressar feminilidade ou raparigas a expressar masculinidade. Nem todas as pessoas "mostram sinais" antes de iniciarem a sua transição. Há pessoas que, independentemente da sua identidade, gostam de ter uma expressão feminina ou masculina (assim como há homens e mulheres que não são trans e que gostam de se expressar de forma feminina ou masculina, respetivamente). Há pessoas que reprimem esses "sinais" por terem medo das consequências que isso possa ter a nível social (a sociedade ainda não aceita bem homens com expressões femininas ou mulheres com expressões masculinas), familiar ou até mesmo laboral. Há quem tenha medo de mostrar "sinais" porque tem medo de explorar essa parte da sua identidade, uma vez que desvios da "normalidade" são vistos como extremamente negativos, perversos ou até mesmo patológicos. Portanto, pode existir esta perceção de que alguem que nunca mostrou sinais subitamente "tornou-se trans assim do nada". Na realidade, "mostrar sinais" não é um requisito para ser trans, existindo imensos motivos para uma pessoa reprimir ou não ter esses sinais.

O processo de transição consiste apenas em uma cirurgia.

Normalmente as pessoas só se lembram da existência da "operação de mudança de sexo", ou seja, das cirurgias de reconstrução genital. Na realidade, um processo de transição pode incluir outras cirurgias e intervenções clínicas, ou pode não incluir nenhuma dessas coisas. A transição também inclui uma componente social, durante a qual a pessoa declara o seu género e começa a viver em concordância com aquilo que sente ser. O processo de transição é complexo e, na maioria dos casos, longo. Estar a reduzir tudo a apenas uma cirurgia ignora todos os outros passos que uma pessoa pode fazer.

O processo de transição só está concluido depois de terem feito todas as cirurgias.

Normalmente vem acompanhado de outro mito:
"Todas as pessoas trans querem fazer todas as cirurgias."
Algumas querem, algumas não. As alterações físicas que uma pessoa trans faz são feitas de forma a que a pessoa consiga atingir o seu próprio bem estar (físico, psicológico e social). A noção de "concluído" pode variar de pessoa para pessoa. O objetivo de uma transição clínica não é atingir um "corpo ideal" masculino ou feminino. É, sim, atingir um corpo que nos permita viver em paz com nós mesmos. Há pessoas que sentem que têm de fazer todas as intervenções cirúrgicas disponíveis. Há outras que não. A forma como vivenciamos o nosso corpo é algo extremamente pessoal, e nao faz sentido estar a impor a nossa visão do que é um "corpo ideal" ou um "corpo correto" em cima das outras pessoas. O importante é uma pessoa fazer o seu processo de transição, ao seu ritmo e de acordo com as suas necessidades.  

Os cuidados de saúde trans-específicos não deviam ser comparticipados pelo estado ou pelas seguradoras, se querem mudar de sexo que paguem do próprio bolso.

Os cuidados de saúde trans-específicos podem incluir terapia e acompanhamento psicológico, terapias hormonais, intervenções cirúrgicas, entre outros procedimentos. Estes procedimentos são a única forma de aliviar o mal estar e desconforto que muitas pessoas trans sentem com o seu corpo (ou partes dele) e são reconhecidos pelos profissionais de saúde da área como sendo eficazes e essenciais para melhorar a qualidade de vida das pessoas que deles necessitam. Ou seja, são cuidados de saúde comprovadamente clinicamente necessários, sem os quais muitas pessoas trans não conseguem estar plenamente saudáveis. São intervenções clínicas que contribuem para a saúde das pessoas, não são caprichos ou meras intervenções estéticas. Como tal, estes procedimentos devem ser comparticipados pelo estado e devem ser incluídos nos planos dos seguros de saúde. Estar a negar isto é estar a negar às pessoas trans um direito humano fundamental, o direito à saúde.

As pessoas trans na verdade são só gays muito efeminados ou lésbicas muito masculinas.

A orientação sexual não influencia a identidade de uma pessoa. Um homem trans que goste de mulheres não é uma "lésbica muito masculina", assim como uma mulher trans que goste de homens não é um "gay muito efeminado". São apenas pessoas trans heterossexuais. Homens efeminados e mulheres masculinas existem, mas não deixam de ser homens ou mulheres, respetivamente, por causa disso. Mais informação sobre isto nesta página.

Todas as pessoas trans são heterossexuais.

Muitas são, muitas não. Uma pessoa trans, à semelhança de uma pessoa que não seja trans, pode ter qualquer orientação sexual, seja ela heterossexual, gay, bi, assexual, etc. Ser heterossexual não é um requisito para se ser trans. Mais informação sobre isto nesta página.

Isso é só um fetiche.

Os fetichismos relacionados com cross-dressing (vestir roupas associadas ao género oposto) são independentes da identidade de uma pessoa. As pessoas trans sabem qual é o seu género, e desejam vivencia-lo a tempo inteiro, não apenas em momentos sexuais e/ou afetivos.