Cenas em Vídeo: "Fred McConnell: There's no such thing as a 'sex change'"

Hoje encontrei este vídeo, que aborda um bocado a questão da representação trans nos meios de comunicação social. Como achei que está bom e que passa uma boa mensagem, partilho-o aqui convosco. Tentei também fazer uma tradução livre, para quem não se der bem com o inglês.



"Uma ex-promotora de boxe que representou grandes nomes do boxe como Lennox Lewis, fez a transição de homem para mulher. O seu nome é Kellie Maloney e está, por todas as contas, muito feliz por finalmente ser ela própria, depois de décadas a sentir-se profundamente infeliz com o género masculino que lhe foi atribuído. 

Esperançosamente, essa introdução foi clara e fácil de acompanhar. Também espero que tenha sido correta. Eu não a tratei pelo género errado, nem usei terminologia desatualizada e desajeitada tal como "mudança de sexo". Os meios de comunicação social geralmente tratam as pessoas pelo género errado e recorrem a estes termos porque o transgenerismo é um tópico sensível e pouco familiar. Falar sobre isso pode parecer um campo minado, mas clareza e precisão não são mutualmente exclusivos.

Ao "jogar pelo seguro" no que toca a histórias sobre transgenerismo, estamos a conter o progresso e a fazer um desserviço a toda a gente. As pessoas trans são mal representadas e às pessoas que não são trans é-lhes roubada a oportunidade de compreender a profundidade da variância de género.

Eu sou trans portanto, em termos gerais, sei como falar sobre pessoas trans. Mas, ao contrário do meu género, a língua não foi algo com que eu tenha nascido - eu também tive de aprender, eu faço erros. Esses erros não fazem de mim uma má pessoa. Se não fores trans, é ainda mais difícil. Talvez até nunca tenhas considerado antes que o "sexo" é biológico, enquanto o "género" é psicológico porque, para ti, parecem ser a mesma coisa. 

Por isso, muitas pessoas que não são trans vão ver a história da Kellie como algo fascinante, estranho, talvez até um bocado difícil de aceitar. Parece que é deste ponto de vista um bocado confuso e defensivo que os media falam do transgenerismo. É uma pena enorme, porque na realidade não é assim tão difícil.

Kellie Maloney é uma mulher, portanto vamos parar com o "ping-pong" de pronomes: muitos artigos começam a usar "ele" e depois mudam para "ela". Mas a maioria das pessoas trans vêm-se a elas mesmas como sempre tendo pertencido ao género que apresentam após a trasnição. Podemos falar da vida pré-transição sem usar pronomes incorretos. Em vez de falar sobre "tornar-se uma mulher", digam que ela se assumiu como transgénero. Ela não está a viver "como uma mulher" - isto implica algum tipo de role-play. E, por fim, não existe tal coisa como uma "mudança de sexo" - chama-se "transição". Chamar à transição uma "mudança de sexo" é como chamar à puberdade uma "mudança de corpo"; soa um bocado pateta e redutor, não soa?

A nossa suposição de que a Kellie era um homem é totalmente compreensível. Não precisamos de nos sentir mal ou pedir desculpa, só temos de tornar mais fácil para que outras pessoas como ela consigam assumir a sua identidade mais cedo. 

Aqui está um próximo passo: quando ouvires algo sobre uma pessoa trans, pensa nela como uma pessoa a assumir a sua identidade, não como uma pessoa a tornar-se uma pessoa diferente ou a mudar de género. A Kellie é a mesma pessoa, é agora mais genuína a ela mesma do que alguma vez foi. Quando usamos hormonas na nossa transição, é como passar por uma segunda puberdade, o que é verdade porque estamos, de facto, a tornarmo-nos quem realmente somos. Algumas pessoas, eu incuído, sentem que finalmente cresceram. O que me trás à melhor parte de tudo isto: quando conseguimos ser nós mesmos tornamo-nos, geralmente, mais felizes, mais confiantes. 

As regras comuns de cortesia e privacidade aplicam-se na mesma, mas falar sobre assuntos trans é algo que geralmente fazemos, se ajudar as pessoas a compreender melhor aquilo pelo o que passamos. Basta usar senso comum e julgar a conversa de acordo com o grau de confiança que temos com a pessoa com quem estamos a falar. É um estranho? Provavelmente não devem começar a conversa com questões íntimas sobre a sua história pessoal; aliás, não lhe perguntem nada pessoal, é um estranho. É um amigo vosso? Foi ele que iniciou a converesa? Então é, provavelmente, aceitável fazer perguntas mais diretas; apenas não "entrem a matar" como se nunca tivessem socializado com outros seres humanos antes. Nunca partilhem detalhes pessoais do vosso amigo com outras pessoas, nem falem sobre ele nas suas costas. É apenas uma questão de ser uma pessoa correta. É sempre boa ideia perguntar que pronomes é que a pessoa prefere, e é sempre aceitável cometer erros. É constrangedor, mas é a vida. As intenções é que importam. 

A pior coisa que podemos fazer nos meios de comunicação social, é reforçar o status quo negativo no que toca a assuntos trans. Não é apenas umm questão de respeito. Quando chegarmos ao ponto de fazer justiça a uma história como a da Kellie, poderemos focar-nos mais no que realmente interessa. Podemos falar na violência e discriminação desproporcional que as pessoas trans enfrentam. Podemos trabalhar no sentido de melhorar a enorme taxa de suicídio, pobreza e falta de abrigo dentro da comunidade. E podemos assegurar que, quando falamos sobre igualdade social e legal para pessoas LGBT, realmente englobamos o L, o G, o B e o T. "

fonte do vídeo: The Guardian


Notas:

) eu tenho zero experiência a traduzir textos ou vídeos, portanto de certeza que há por aí alguns erros. Se alguém tiver alguma sugestão para melhorar a tradução, sintam-se à vontade para deixar um comentário;
) eu traduzi sempre a palavra "transgender" para "transgénero" apesar de sentir que, em alguns casos, "transexual" encaixaria melhor na mensagem. A língua inglesa tem esta mania chata de usar quase exclusivamente a palavra "transgender", tanto para se referir ao transgenerismo como à transexualidade.