"Disfórica é a tua mãe!"

Wake me up when September July ends... ou a meio de Julho, já serve. A faculdade não me tem deixado escrever nada, entre exames, trabalhos e relatórios, o tempo era pouco e a paciência ainda menor. Mas entretanto continuei a acumular tópicos que gostava de abordar aqui e, agora que já me livrei da faculdade (até Setembro, vá), já consigo voltar a escrever alguma coisa de jeito. 

Deixem-me falar um bocado sobre "disforia". Muitas vezes oiço falar das pessoas transexuais como "pessoas que sofrem de disforia de género"; "disforia de género" é também o nome que dão às pessoas transexuais na versão mais recente do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM - um manual de diagnóstico elaborado pela American Psychiatric Association (APA)), vindo substituir o que antes chamavam de "Gender Identity Disorder" (Perturbação de Identidade de Género). 

Em termos básicos, disforia de género é um desconforto e/ou descontentamento com o género que nos foi atribuído à nascença. É aquilo a que normalmente se refere quando dizemos que as pessoas transexuais "sentem-se mal" com o seu corpo ou com o seu papel na sociedade. Esse "mal estar" é a base da disforia. O conceito é bastante simples, mas mesmo assim ainda vejo por aí muita desinformação a ser espalhada em relação a este tópico.

A ideia (errada) mais comum que costumo encontrar é a ideia de que disforia de género significa que uma pessoa odeia o seu corpo. Enquanto que é verdade que a disforia pode levar a sentimentos de ódio em relação à nossa própria pessoa, esses sentimentos não são o que define disforia, nem estão sempre presentes nas pessoas disfóricas. A disforia pode manifestar-se de diversas formas: pode ser um desconforto físico ou psicológico, pode ser uma sensação de desconexão com o nosso corpo (sentir que o nosso corpo não nos pertence, não nos identificarmos com a nossa imagem num espelho, uma sensação um bocado abstrata de "o meu corpo não devia ser bem assim"), pode manifestar-se como uma depressão, ansiedade, angústia, tristeza ou descontentamento geral com as características sexuais primárias e/ou secundárias do nosso corpo. Tudo isto pode levar, eventualmente, a sentimentos auto depreciativos, ao tal "ódio" ao nosso próprio corpo; mas nem sempre tal acontece, e acho errado estar a espalhar esta ideia uma vez que muita gente não se identifica com ela.

Eu já cheguei a ouvir pessoas a descrever imensos sintomas de disforia, mas a chegar ao fim e dizer "mas eu não tenho disforia, não odeio o meu corpo" - eu próprio andei anos a pensar desta forma, o que foi péssimo pois foi algo que me permitiu continuar em negação em relação à minha própria identidade como pessoa transexual. "Como não tenho um ódio de morte do meu corpo, então não devo ser mesmo trans", era disto que eu me tentava convencer, durante anos, até chegar à conclusão que realmente não precisava de ter um ódio extremo ao meu corpo para encaixar dentro dos sintomas de disforia de género e para beneficiar de uma transição.

A disforia acaba por ser o que motiva as pessoas transexuais a iniciar a transição - aliás, a transição pode até ser definida como um conjunto de modificações que uma pessoa faz para aliviar a disforia de género. É importante referir que, porque nem toda a gente experiencia a disforia da mesma forma nem com o mesmo grau, então logicamente se conclui que nem toda a gente segue a mesma linha durante a sua transição. 

De vez em quando deparo-me com pessoas que rejeitam por completo a noção de "disforia de género" porque sentem que é um termo usado para patologizar as pessoas transexuais. "Disfórica é a sociedade", "disfóricos são os médicos", são coisas que já vi por aí e que pretendem transmitir a ideia de que a sociedade é que está errada em relação à noção de transexualidade, às pessoas transexuais e às questões de identidade de género no geral. Pessoalmente, estes statements incomodam-me um bocado, apesar de entender de onde surgem. É um facto que a sociedade atual não vê com bons olhos as pessoas transexuais (nem qualquer pessoa que fuja um bocado das normas de género) e que é preciso ainda imenso trabalho para que sejamos totalmente aceites e vistos como seres humanos completos e merecedores de dignidade. É também verdade que ainda existem inúmeros profissionais de saúde que teimam em rotular-nos de doentes mentais. Mas pegar nisso e invalidar todo o conceito de "disforia de género", como se fosse algo que existisse apenas devido a fatores externos à pessoa transexual, parece-me um abuso.

Dizer que "disfórica é a sociedade" incomoda-me porque parece estar a implicar que a minha experiência, a minha relação com o meu género, o meu corpo e a minha identidade, tudo isso é inválido porque, pelos vistos, eu não tenho disforia, a sociedade é que tem. Como se, se eu vivesse num contexto social diferente (por exemplo, numa sociedade hipotética onde o conceito de género não existisse), deixasse subitamente de ter disforia. Como se, se eu conseguisse abstrair-me dos conceitos de género que a sociedade me impõe, deixaria de ter disforia e não teria de me dar ao trabalho de fazer a transição. Tudo isto começa a soar perigosamente próximo dos argumentos transfóbicos que dizem que as pessoas transexuais deveriam apenas aprender a aceitar o seu corpo e que, portanto, a transição é inútil. E isto não sou eu a pensar demais numa expressão supostamente inócua, já não é a primeira vez que vejo este tipo de ideia associado a outras ideias como "um homem pode ter uma vagina e mamas" (eu não discordo desta ideia, atenção) e até já vi pessoas a pegar nisto e a fazer umas acrobacias argumentativas estranhas e chegar à conclusão que a disforia é, no fundo, uma forma de cissexismo e transfobia internalizada. Porque, ao querer aproximar o meu corpo de um corpo "normativamente masculino", estou na realidade a reforçar a ideia sexista de que "um homem tem de ser assim e uma mulher tem de ser assado" (eu gostava mesmo de estar a inventar isto, mas não estou). 

Eu sou todo a favor de desconstruir o binarismo de género que a sociedade força em cima de nós, mas gostava que o fizessem de uma forma que não invalidasse as experiências das pessoas transexuais. Eu tenho a certeza que, mesmo se/quando a noção de género for desconstruída, as pessoas transexuais e com disforia vão continuar a existir; talvez lhe dêem um nome diferente, talvez não lhe atribuam qualquer conotação de género, mas o fenómeno que hoje, nesta sociedade, chamamos de "disforia de género" irá continuar a existir. Eu digo isto tendo como base apenas a minha experiência pessoal (que vale apenas o que vale...); eu muito antes de saber o que era uma pessoa transexual, muito antes de "disforia" ter entrado no meu vocabulário, eu já me sentia disfórico. E, hoje em dia, mesmo após ter passado anos a tentar negar a minha própria disforia, mesmo depois de andar a tentar convencer-me que não era real, que conseguia convencer-me a mim próprio que conseguia viver como "um homem com vagina e mamas" e ser feliz assim... mesmo depois de tudo isto, um facto é que "disforia" continua a descrever bem o que eu sinto em relação ao meu género. 

Eu gostava de ver a palavra "disforia" a ser melhor aceite, estar a estigmatiza-la (ainda mais do que ela já é) e a tentar apaga-la não ajuda nada, na minha opinião.