A propósito das parvoíces que por aí se dizem...

Para ver se ressuscuto este blog, fica aqui o copy-paste de um ressabianço que fiz há uns dias no Facebook, a propósito das parvoíces que alguma malta anda por aí a espalhar sobre uma hipotetica nova lei de identidade de género:

"Ficando farto das mesmas conversas over and over again:
A proposta do BE prevê que seja possível a um menor de 16 anos lutar pelo direito à sua identidade, mesmo quando os seus representantes legais o tentam negar.
Sim, porque há pessoas que com menos de 16 anos já sabem bem que o género que lhes foi atribuído não é o género a que realmente pertencem.
E mesmo que não saibam, mesmo que depois se arrependam, não há crise, porque isto refere-se apenas à mudança de nome no registo civil, processo inteiramente reversível.
"ah, mas os putos vão começar a processar os pais e a mudar de nome para serem rebeldes"
Não, não vão. Ou se forem, estão a ser extremamente idiotas e rapidamente vão voltar atrás nesse ato de "rebeldia". Têem noção do que é viver com documentação incongruente com a vossa presença social? Mostrar o CC é um problema. Mostrar o passe no BUS é um problema. Matrículas em escolas/faculdades/whatever é um problema (já para não falar da informação nos sistemas informáticos das faculdades/escolas, nomes nas pautas, entrega de trabalhos, ter profs e colegas a tratar-nos pelo nome errado, etc). Uma vez até na biblioteca não me queriam deixar levar livros porque insistiam que aquele cartão não era meu. Qualquer merdinha em que tenham de apresentar algum tipo de identificação torna-se numa situação potencialmente desagradável ou até mesmo violenta.
Portanto, okay, sejam rebeldes, mudem de nome à toa. Boa sorte. Vamos ver quantos dias aguentam. Mas há formas mais fáceis de serem rebeldes. Formas que além de vos pouparem complicações legais, também não vos coloca em cima todo o estigma associado às pessoas trans.
Pois, porque ser trans não é fixe (se acham que sim, tirem a cabeça do tumblr e das páginas de memes e falem 5 mins com alguém trans). Nenhum puto de 13 anos vai decidir chamar-se Amélia só para arreliar os pais, quando tal lhe iria trazer todo um convite para ser alvo de bullying por parte dos colegas.
Portanto, não, não vai surgir uma epidemia de crianças a processar os pais para mudar de nome só porque sim.
"ah, mas achas bem fazer uma coisa assim tão cedo?"
Sim, acho. Toda a gente fala sobre o quão prejudicial pode ser para uma criança começar um processo de transição, mas ninguém fala do quão prejudicial pode ser NÃO começar um processo de transição. Para uma criança que já começou a sofrer de disforia, depressão, ansiedade, ideações suicidas, e sabe-se mais lá o quê, é negligente não fazer nada e "esperar que amadureça", porque "é muito cedo".
E por falar sobre ser "prejudicial começar tão cedo", volto a relembrar que esta "polémica" toda gira à volta da mudança de nome no registo civil. Não estamos a falar sequer de intervenções clínicas, apenas da atualização do CC.
E mesmo que estivessemos a falar sobre intervenções clínicas, ditam as normas clínicas internacionais que antes dos 16 podem ser administrados bloqueadores de puberdade (coisa que, tanto quanto sei, ainda não se faz em Portugal), cujos efeitos são também reversíveis. Esse tipo de medicação serve para "comprar tempo" à criança, impedem que os caracteres sexuais secundários se desenvolvam enquando a criança, em conjunto com a sua família e médicos, fica com tempo para entender bem aquilo que é e aquilo que precisa para ficar bem. Se entretanto a criança descobrir que afinal não é trans, no harm done, deixa de tomar a medicação e prossegue a puberdade normalmente. Se entretanto entender que é trans, ótimo, evitou que uma série de mudanças corporais ocorressem e minimizou a disforia e outras possíveis complicações no futuro. Tivesse eu acesso a isso durante a minha puberdade, teria evitado anos em depressão, confusão, e evitava ter hoje duas cicatrizes enormes no peito.
Portanto, essa malta toda raivosa com a discussão de uma nova lei precisa seriamente de CHILL THE FUCK DOWN e de parar de dizer merda sobre um assunto em relação ao qual nada entendem, nem se esforçam por entender. E para os pseudo-jornalistas que andam por aí a espalhar headlines inflamatórias, espero que a vossa série favorita seja cancelada e que o vosso microondas vos deixe sempre a comida a ferver nas bordas e congelada no centro. Shame on you."

2 Anos em T - Q&A e Coisas Aleatórias

Faz hoje dois anos desde que iniciei a terapia hormonal com testosterona. Há imensa coisa que poderia escrever sobre o assunto, e eventualmente irei escrever, mas não hoje, que já se faz tarde. Portanto, deixo aqui apenas algumas das perguntas mais frequentes que as pessoas me fazem em relação à terapia hormonal.


Quanto tempo é que demoraste para começar a tomar testosterona?
Pouco menos de um ano após ter iniciado as consultas para as avaliações psicológicas. A certa altura já tinha terminado as avaliações, mas tive de esperar mais de meio ano na fila de espera para a consulta de endocrinologia! Tivesse eu dinheiro para ir ao privado, teria começado uns meses mais cedo.


É possivel arranjar testosterona sem ir a essas consultas?
Sim, mas não o recomendo. É importante haver uma monitorização periódica do estado da nossa saúde de forma a evitar problemas que possam surgir. 

Como é que arranjo isso sem médicos, então?
Não sei. Sei que é possível porque já vi outras pessoas a faze-lo, mas eu sempre fiz tudo pelas "regras" e portanto não tenho informação sobre o assunto.

Só dá para tomar isso com injeções?
Não, há comprimidos (péssimos para o fígado) e gel (muito caro). Quando tiver dinheiro suficiente talvez mude para o gel porque sou um mariquinhas com medo de agulhas.

A testosterona não te deixa agressivo?
Não, continuo a mesma pessoa calma que era antes da terapia hormonal. Por vezes sinto-me mais impaciente, mas mesmo aí não reajo com agressividade. Este mito vem do fenómeno da "roid rage" que acontece com algumas pessoas (homens cis) que abusam de esteróides anabolizantes (entre os quais a testosterona) para ganhar músculo mais facilmente. No entanto, a dose que o pessoal trans toma é completamente diferente das doses que o pessoal dos ginásios faz nos seus ciclos.

Isso ajuda-te a crescer mais músculos?
Sim, ajuda um bocado, embora não seja esse o motivo pelo qual faço a terapia hormonal. E, adiantando-me à pergunta seguinte: não, não te arranjo disto para ganhares músculo no gym.

Cresceste em altura?
Não.

Nem ficaste com os pés ou as mãos maiores?
Nope.  Eu meço exatamente o mesmo e todos os sapatos e luvas ainda me servem. 

E a maçã de adão, cresceu?
Sim, essa sim, juntamente com as mudanças na voz. 

Há alguma mudança que não gostes?
Sim, o aumento do acne e o cheiro do suor.

Arrependes-te de alguma coisa em relação às hormonas?
Não.


Algumas notas e pensamentos que me foram passando pela cabeça ao longo dos últimos 2 anos:
  • tomar medicação injetável não é tão mau como estava à espera, mas mesmo assim não me consigo livrar da ansiedade imediatamente antes de a agulha me perfurar a pele;
  • tentar fazer conversa com a enfermeira quando tens uma agulha espetada no rabo não diminui o constrangimento da situação;
  • acne nos ombros e binders é uma combinação preparada pelo demónio;
  • assim como é também a combinação de acne na cara e pêlo facial;
  • epah, acne em geral. F*ck that;
  • os desodorizantes masculinos funcionam bem melhor que desodorizantes femininos;
  • durante o primeiro ano-e-tal, não, não andava rouco nem afónico, simplesmente ainda não tinha aprendido a usar direito as minhas cordas vocais;
  • ter a líbido aumentada nos primeiros meses não foi remotamente tão divertido como estava à espera; felizmente entretanto a coisa acalmou;
  • pela enésima vez: caros amigos gajos, não, vocês não vão ficar com mais barba nem com a voz mais grossa se tomarem a minha medicação; se acharem mesmo que têm algum problema hormonal, vão ao médico;
  • sim, posso vir a sofrer de calvice, tal como qualquer outro homem; não me lembrem disso, sff ;_;
  • fazer uma posologia ligeiramente diferente da maioria das outras pessoas não tem mal nenhum, as mudanças acontecem na mesma;
  • a testosterona não mudou a minha personalidade, mas sinto influencia a forma como reajo a emoções fortes (positivas ou negativas). As reações iniciais parecem ser mais intensas, mas também consigo voltar a uma "baseline emocional" com maior facilidade;
  • por vezes só dá para perceber que as mudanças estão a acontecer porque as outras pessoas (que já não nos vêm há algum tempo) as apontam;
  • ou então quando me ponho a olhar para fotografias; fotografar as mudanças foi das melhores ideias que já tive no contexto da transição!

Lei de Identidade de Género - Proposta do Bloco de Esquerda

Há alguns meses atrás o Bloco de Esquerda apresentou uma proposta de lei para substituir a atual (única e primeira) lei de identidade de género. Ando desde então para lê-la com atenção e formar uma opinião, mas só agora que o PAN fez o mesmo é que decidi meter mãos à obra mais a sério. Tencionava falar sobre ambas as propostas num únco post, mas depois o texto começou a ficar demasiado extenso, portanto vou dividi-lo em dois posts, um para cada proposta. O "selling point" dessas propostas centra-se na garantia da autodeterminação de género para as pessoas trans - ou seja, na possibilidade de uma pessoa poder mudar de nome e marcador de sexo nos seus documentos sem para isso ter de apresentar qualquer diagnóstico de disforia, de perturbação de identidade ou do que mais lhe quiserem chamar. 


Eu sou da opinião que as pessoas trans deveriam poder autodeterminar o seu género e vê-lo reconhecido pelo estado sem qualquer intervenção ou autorização de terceiros, incluindo de quaisquer profissionais de saúde. O processo clínico deveria estar completamente divorciado do processo legal de transição e, da mesma forma que o acesso aos cuidados de saúde não está dependente da mudança de nome e sexo nos documentos, a mudança de nome e sexo nos documentos não deveria estar dependente do estado do nosso processo clínico. A lei atual quase que consegue atingir este ideal, não colocando qualquer requisito relacionado com a transição física: não exige nenhuma cirurgia ou tratamento hormonal. O que exige é um relatório clínico que comprove que foi feito um diagnóstico de disforia de género/perturbação de identidade de género. 

Dito isto, torna-se óbvio que encaro estas propostas de lei como positivas, mas não posso deixar de fazer uma análise crítica às mesmas. 

Começando então pelo texto introdutório da proposta do BE.

Ao longo do texto referem várias vezes não só a questão da identidade de género, mas também a de expressão de género. Coloco em causa a relevância da menção às questões relacionadas com a expressão de género, quando tal é irrelevante na definição da identidade de uma pessoa. O facto de uma pessoa ter uma expressão diferente da norma não faz dessa pessoa trans, ao contrário do que o texto parece sugerir. É certo que existe muita discriminação direcionada às pessoas cuja aparência difere daquilo que está estabelecido como sendo a "aparência correta" para um determinado género, mas isso é um problema separado do problema da autodeterminação (da identidade) de género.

Mencionam também identidades de género não binárias sem, no entanto, as incluirem na lei per se, uma vez que a lei contempla apenas mudanças do marcador de género de F para M ou vice-versa. 

A certa altura durante o texto citam várias entidades de forma a construir o argumento de que as pessoas trans não devem ser obrigadas a submeter-se a qualquer intervenção física (cirúrgica e/ou farmacêutica) para que lhes seja reconhecido oficialmente o seu género. Fica incerto o motivo deste argumento nesta proposta de lei, uma vez que a lei atual já permite que mudemos o nosso nome e marcador de sexo sem qualquer intervenção física. A única citação que faz sentido neste contexto é a última, que menciona os diagnósticos de saúde mental como requisitos abusivos para a mudança de nome e sexo.

Ainda sobre intervenções clínicas, o BE diz que esta lei pretende garantir o acesso aos cuidados de saúde para as pessoas trans que dele necessitem. O acesso aos cuidados de saúde, através do SNS, no âmbito de uma transição já estão, em teoria, assegurados. Isto inclui consultas de várias especialidades, tratamentos farmacológicos e cirúrgicos e, na falta de resposta do SNS, o acesso aos cheques-cirurgia. Isto tudo não é novo, já existe e já se aplica a nós. Em teoria. Na prática, as coisas funcionam muito mal. Não creio que será com uma lei (qualquer lei que seja) que as coisas subitamente comecem a funcionar corretamente. A intenção parece ser boa, mas fútil (até porque não dizem de que forma pretendem assegurar o acesso a estes cuidados de saúde). 

Vamos então olhar para a proposta de lei propriamente dita.

Esta proposta mantém a confidencialidade do processo e assegura que a mudança não pode ser mencionada no novo asento de nascimento da pessoa (artigo 6º, ponto 5). A lei atual refere apenas que "Este procedimento tem natureza secreta." (artigo 1º, ponto 2), enquanto que esta proposta diz que "Este procedimento tem natureza confidencial, exceto a pedido do requerente, dos seus herdeiros e das autoridades judiciais ou policiais para efeitos de investigação ou instrução criminal." (artigo 1º, ponto 2). Também à semelhança da lei atual, a proposta do BE coloca um prazo máximo de resposta em 8 dias a contar do dia em que o pedido de mudança de nome e sexo é feito (artigo 7º ponto 1).

No artigo 3º, ponto 1, alínea a, referem que uma pessoa deve ter o direito ao reconhecimento da sua expressão de género, sem tornar claro o que é que isto significa. Compreendo o direito ao reconhecimento da identidade, mas o que é que significa "reconhecer uma expressão" do que quer que seja? No mesmo artigo e ponto, na alínea seguinte, dizem que uma pessoa deve ter o direito a ser tratada de acordo com a sua (identidade e/ou) expressão de género, o que mais uma vez me faz questionar exatamente o que é que isto significa e se não seria mais adequado referir apenas a identidade. Identidade e expressão de género são coisas distintas. Estar a colapsa-las desta forma não me parece de forma alguma útil ou sequer lógico. Idem aspas para a alínea seguinte desse ponto e artigo.

No artigo 4º parece haver uma contradição: dizem que não se pode exigir a uma pessoa nenhum "exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género", mas uma pessoa não se pode mostrar "interdita ou inabilitada por anomalia psíquica" para poder mudar de nome. Eu entendo o que é que estão a tentar dizer com isto (não deve ser exigido nenhum diagnóstico para mudar o nome), mas parece-me que se cria aqui um pequeno loop suscetível a más interpretações (ou más vontades) pelos funcionários das conservatórias. Porque é preciso garantir que a pessoa não esteja inabilitada por alguma anomalia psíquica, será então legítimo pedir à pessoa algum tipo de relatório clínico que comprove precisamente isso. No entanto, poderá isso ser considerado como um "exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género" ou não?
(13.10.2016 edit: uma pessoa que percebe bem mais do que eu no que toca a estes assuntos disse: "a interdição e inabilitaçao sao decretadas por um tribunal, pelo que não será necessário mostrar qualquer diagnóstico momento do registo. Entendo a preocupação, mas a inabilitação e interdição são figuras gerais para remover ou limitar a capacidade juridica das pessoas, nomeadamente em consequencia de patologia mental que limite a sua capacidade de se auto-reger.")

Ainda no mesmo artigo, extendem a lei a menores de 18 anos, o que é uma melhoria enorme em relação à lei atual. Menores de 16 (artigo 5º) terão de ter autorização de um guardião legal ou, caso este não colabore, poderão intentar uma ação judicial.

No artigo 9º estabelecem que qualquer instituição, pública ou privada, tem obrigação de emitir documentos ou diplomas com o nome e sexo corrigidos sem custos adicionais para a pessoa. Os casos em qua alguma instituição se recusa a atualizar os documentos não são muito comuns, mas mesmo assim existem, portanto a inclusão deste artigo é bastante positiva.

Os artigos 11º  e 13º e 14º estão cheios de boas intenções, mas temo que tentem resolver problemas que estão muito além do alcance de qualquer lei. A forma como as pessoas nos tratam não vão mudar com nenhuma lei, mas sim com anos e anos de educação. Fica notada a tentativa, no entanto. Ainda no artigo 13º, não pude deixar de reparar, na alínea b), o destaque dado às mulheres trans como alvos de discriminações múltiplas. A invisibilização da discriminação sofrida por homens trans (e, no contexto desta alínea em particular, de homens trans que são alvo de outros tipos de discriminações tais como racismo ou homofobia) é algo que me mete uma comichão tremenda no discurso ativista atual. Entendo a ideia de se dar atenção à mulheres, uma vez que são elas que sofrem a maioria da violência transfóbica letal, mas tenho receio que a inclusão desta alínea desta forma acabe por ter como consequência o que vejo na maioria dos espaços ativistas, que é hierarquização de opressões e a resultante negligência da discriminação e violência dirigida aos homens trans. 

Em relação ao artigo 12º (referente ao acesso aos cuidados de saúde), já comentei acima. É muito bonito dizer que se irão garantir esses cuidados, mas hoje em dia já nos dizem isso mesmo sem que, no entanto, esses cuidados estejam efetivamente garantidos. Um ponto positivo que se pode retirar daqui é a oficialização da garantia ao acesso aos cuidados de saúde, de forma a que tal não nos possa ser negado no futuro por qualquer razão. 

Por fim, há que louvar o artigo 15º, que contempla a discriminação laboral em função da identidade de género da pessoa. 

Na generalidade, tenho uma opinião favorável em relação a esta proposta de lei. As falhas que apontei não são críticas, apesar de poderem ainda ser melhor limadas. Fico a aguardar desenvolvimentos (que, aparentemente, só em 2017 é que vão começar a surgir). 

Fluxo de consciência - O que é que sou?

Dizem que sou um homem. Digo que sou. Dizem que sim. Parece que sim.
Mas porquê?

Em tempos diziam que era uma mulher. Eu dizia que o era. Assim me diziam, e eu dizia que sim.
O que é que mudou?

O tempo mudou, passou. O tempo passava, e a puberdade eventualmente passou por mim. A minha mãe negociava comigo para comprar soutiens, e eu negociava com o meu corpo para que me deixasse esconder as curvas, o período. Tudo negociações fúteis. Eventualmente rendi-me à realidade que se forçava em mim. Diziam-me que devia ficar feliz, que tinha tudo no sítio, que estava a ficar uma mulher a sério. Eu dizia que sim. Não tinha outra escolha senão aceitar que sim. Portanto aceitava, sempre um bocado relutante. Um peito liso, pêlo facial, nada destas curvas, destas formas, desta sensação de ter comichão mas não ter mãos para me coçar. Muitas vezes sentia que estava a ser alvo de uma piada de mau gosto de uma qualquer entidade divina, deixar-me neste corpo e com uma saudade de ter esse outro tipo de corpo que nunca tinha tido. Diziam-me que era um corpo de homem, algo fora do meu alcance. E eu não tinha coragem de dizer que não.

Não invejava os rapazes por serem rapazes. Nunca deixei de fazer nada (exceto quando as condicionantes sociais sexistas se tornavam impeditivas) por ser uma mulher. Muitas vezes encontrava resistência, mas tal só me deixava com mais orgulho daquilo que fazia, de desafiar a norma. Diziam que era uma maria rapaz incorrigível, e eu dizia que sim, com orgulho. Gostava da distância que esse título me dava do conceito de mulher, permitindo-me em simultâneo manter distância do conceito de homem. Continuavam a dizer que era uma mulher, continuavam a tratar-me como tal, mas dava-me algum conforto, nem que fosse apenas em momentos solitários e introspetivos, sentir que conseguia rebeliar-me levemente contra esse conceito que forçavam em cima de mim.

Por outro lado, sentia vergonha nos momentos em que fazia algo que seria interpretado como feminino, como coisa de mulher. Provavelmente por ser mais masculino habitualmente, as pessoas à minha volta gostavam muito de apontar com entusiasmo qualquer quebra dessa minha postura masculina. Não perdiam tempo em dizer que eu era uma mulher, afinal de contas, por muito maria rapaz que fosse. Tais momentos deixavam-me com uma sensação de vergonha, tristeza, angústia até, sem que eu entendesse porquê. A minha reação imediata era esconder-me, tapar o meu corpo, ir para algum sítio onde ninguém me pudesse ver. Nesses momentos as tais comichões intensificavam-se ao ponto de deixarem de ser comichões. Eram queimaduras, apertos no peito, era uma necessidade urgente de me livrar desta pele, destas formas. Hoje em dia chamar-lhe ia apenas disforia.

A certa altura tropecei no conceito de transsexualidade e, por momentos, tudo pareceu fazer sentido. Diziam que era uma mulher, mas na realidade era um homem. Fazia sentido. Fazia? A parte referente à disforia física encaixava bastante bem, mas o sentido parava aí. Muitos dos "pilares" daquilo que me mostravam que era a transsexualidade não se aplicavam a mim. Não me "sentia" homem. Não sabia sequer o que é que isso significava. Não me sentia homem e nunca me tinha sentido menino na infância, época onde, diz quem entende do assunto, a nossa identidade de género se forma e cimenta. Mas eu não me sentia homem, tal como não me sentia mulher. Entretanto fui introduzido aos conceitos de não binarismo de género, pessoas sem género, genderqueer's e afins. Isso já me fazia algum sentido, conseguia rever-me nesses conceitos. Aos poucos, fui descortinando e desconstruindo um monte de bichinhos que tinha na cabeça sobre género, sexo e sobre a transição. Cheguei à conclusão que precisava e beneficiaria imenso de uma transição física no sentido de obter uma anatomia mais próxima do masculino, e tenho andado nessas andanças há cerca de 3 anos. 

Hoje em dia já ninguém diz que sou uma mulher. A minha apresentação já não dá margem para ambiguidades. Dizem que sou um homem. E eu digo que sim. Podia dizer que não, que era agénero, é o conceito onde sinto que encaixo melhor. Se sentisse que a minha identidade de género fosse uma parte mais relevante do meu ser, provavelmente adotaria esse rótulo. Mas na prática, não me é assim tão importante. Na prática, sou um homem e, como homem, sinto que tenho muito mais poder para modificar esse rótulo, re-definir o que é um homem, moldar esse conceito, desentoxica-lo e torna-lo mais confortável, tanto para mim como para quem mais se encontre cá.

Não sou um homem porque preencho estereótipos de masculinidade - preencho alguns, falho outros.
Não sou um homem porque sinto que sou - não sinto que seja coisa alguma.
Não sou um homem porque tenho o corpo masculino - ainda mantenho características físicas entendidas como exclusivamente femininas, e não tenho planos para as modificar num futuro próximo.

Sou um homem porque me dizem que sou, e sinto-me em paz com isso.

Identidades e Legitimidades

Hoje tropecei num blog novo, Fora de Borda, cujo primeiro post toca num assunto que tenho vindo a tentar abordar aqui. Inicialmente este texto era uma resposta a esse post, mas entretanto expandiu-se e mutou-se de tal forma que decidi publica-lo aqui.

O texto foca-se na questão da legitimidade para discursar sobre determinados temas, no contexto do ativismo lgbt e feminista. Ficam aqui alguns pensamentos que me surgiram ao ler o texto.

Tenho-me tornado cada vez mais convicto de que o critério que confere legitimidade ao discurso de alguém não será apenas a identidade, mas principalmente a experiência. A lógica por trás do critério "identidade" parte do princípio que todas as pessoas dentro de uma determinada categoria identitária terão passado, relativamente a dinâmicas sociais e institucionais de opressão, por experiências semelhantes. Apesar de este critério não ser perfeito (compare-se, por exemplo, os recursos disponíveis a um homem gay a viver numa aldeia no interior do país, com um homem gay a viver num meio urbano), era suficientemente satisfatório para poder ser aplicado na maioria das situações. No entanto, dois "problemas" têm vindo a surgir: 

1) o foco crescente na interseccionalidade de identidades é uma coisa boa, mas complica a aplicação deste critério exclusivamente identitário no apuramento de "legitimidades" para "falar em nome de [x]". Por vezes torna-se complicado entender até que ponto faz sentido alguém falar em nome de [x], tendo em conta que essa pessoa é, em simultâneo, [x], [y] e [z] - até que ponto é que pessoas [x] que não sejam [y] e/ou [z] partilham experiências com a primeira pessoa (e vice-versa) e, consequentemente, poderão as pessoas [x] sentir-se mal representadas uma vez que não são [y] ou [z] (e, da mesma forma, poderá a primeira pessoa sentir-se mal representada pelo discurso de alguém que não seja [y] ou [z]). Será legítimo alguém trazer para a discussão assuntos relativos às identidades [y] e [z] numa discussão sobre [x]? Ou será legítimo sequer discutir [x] sem ter em consideração as pessoas que também serão [y] e/ou [z]? Tenho visto algumas trocas de ideias sobre este assunto e ainda não faço ideia sobre como começar a responder a nenhuma destas questões.

2) a fluidez e abertura de determinadas identidades permitem que mais pessoas se encontrem dentro da mesma categoria identitária (com todas as vantagens que isso pode trazer à pessoa) mas surge o risco de se diluir as experiências relativas a essa identidade. Estar aberto a diferentes vivências dentro de uma determinada categoria identitária é uma coisa boa, mas pode tornar-se algo negativo se essa categoria identitária for resumida a nada mais que um mínimo múltiplo comum entre pessoas que têm experiências, vivências e que estão sujeitas a dinâmicas de privilégio extremamente diferentes. Este é um ponto em relação ao qual que eu, como pessoa trans, cada vez mais me questiono. A definição atualmente mais utilizada de "trans" é "pessoa cujo género difere daquele que lhe foi atribuído à nascença", não tendo em conta coisas como, por exemplo, disforia, transição clínica ou apresentação social. Como tal, existem pessoas trans que estão sujeitas a opressão por sofrerem disforia, estarem a fazer uma transição clínica e/ou social, e existem pessoas trans que não passam por nenhuma destas experiências e, como tal, não estão sujeitas à opressão que lhes está associada. Terão outros problemas e estarão sujeitas a outras dinâmicas de opressão, mas isso é algo que eu não consigo avaliar ou comentar por não fazer parte desse grupo de pessoas. O que me trás ao que eu estava a dizer: apesar de sermos pessoas trans, podemos estar sujeitos a dinâmicas de opressão extremamente divergentes, o que levanta a questão: "mesmo sendo todos trans, quem é que tem legitimidade para falar sobre o quê?". Será legítimo, por exemplo e tendo em conta que o acesso aos cuidados de saúde é um dos grandes temas do ativismo trans, uma pessoa que não passou pelo processo clínico de transição falar sobre o mesmo? E será adequado, tendo em conta que outro grande tema se prende com questões puramente identitárias, uma pessoa trans que passou pelo processo clínico falar sobre a legitimidade da identidade das pessoas trans que não o fizeram? Se avaliarmos estas perguntas pelo critério da identidade, a resposta é "sim" a ambas; no entanto, pessoalmente, penso que tal não faz qualquer sentido. Creio que isto ilustra bem o problema de agruparmos pessoas (e, consequentemente, atribuirmos legitimidade) de acordo com um critério mínimo e pouco ou nada representativo das experiências que as pessoas têm em relação aos diferentes eixos de opressão/privilégio.

O que me trás de volta àquilo que eu estou a tentar defender: o critério prioritário para atribuir legitimidade ao discurso de uma pessoa sobre um determinado tema deve ser a vivência da pessoa, não apenas a sua identidade. 

No entanto, entendo que este critério também possa ter alguns problemas. Um dos problemas é algo que eu por vezes sinto no meio de discussões sobre feminismo e misoginia. Em diversas ocasiões presenciei e participei em discussões sobre a opressão que as mulheres sofrem, na primeira pessoa, e tive vontade de intervir (e, por vezes, fi-lo). Eu sou um homem, portanto à partida não teria nada de relevante a acrescentar a uma discussão dessas. No entanto, vivi a maior parte da minha vida sendo percecionado e tratado como uma mulher e, portanto, passei por muitas das experiências que as mulheres passam. Tenho então, ou não, legitimidade para intervir? Eu diria que sim, porque dou prioridade à vivência em detrimento da identidade, no entanto surgem-me outras questões que me fazem pensar várias vezes antes de dizer algo. Partindo então do princípio que é legítimo eu falar, será adequado? Será útil eu desviar a conversa para incluir a experiência de um homem, quando se está a discutir misoginia e sexismo? Será adequado eu fazer um apelo à inclusão de pessoas que não são mulheres, quando se está a discutir a opressão sofrida por mulheres? Será isto sequer um apelo a uma discussão mais inclusiva, ou será uma invisibilização do problema da misoginia? Será que só o devo fazer se apresentar um disclaimer prévio em que explico que a minha experiência se refere apenas ao passado, quando era percecionado como mulher, exigindo que me exponha como pessoa trans (coisa que não costuma ser um problema para mim, mas será para outras pessoas) e possivelmente tendo de fazer uma pausa na discussão para esclarecer às pessoas presentes qualquer dúvida sobre questões trans (coisa que nem sempre tenho paciência para fazer e que provavelmente irá descarrilar a discussão que estava a acontecer previamente)? Este é outro monte de perguntas às quais eu ainda não sei responder. Normalmente tento avaliar o espaço onde estou, as pessoas e o rumo da conversa antes de tomar uma decisão sobre falar ou não.

Esta questão é também levantada no Fora de Borda:
As dimensões das identidades não são fluídas? Então cada ‘voz’ pode ficar imediatamente sem validade perante o decorrer do tempo, pois todos os espaços e tempos das nossas vidas são parte integrante de quem somos, e quem eu sou agora que escrevo, poderá não ser exatamente quem vai colocar o ponto final neste texto.
Esta é uma questão que me faz pensar e que já abordei antes neste blog (de uma perspetiva pessoal, não reivindicativa). Somos nós uma soma integral de tudo o que fomos no passado, ou somos apenas quem somos agora? E de que forma é que isto influencia a nossa legitimidade para falar sobre identidades que tivemos no passado mas que já não temos presentemente?

Todo este post levanta perguntas às quais não sei responder. Duvido sequer que, para muitas delas, exista uma resposta absoluta. Mas cá ficam as questões, para quem quiser pensar nelas e trocar ideias.

Unpacking: Disforia de Género no DSM-V

Muito se fala sobre a questão da despatologização e despsiquiatrização (eu nem sei se esta palavra existe realmente, mas já a vi a ser atirada por aí) da transsexualidade. É um assunto que eu quero um dia elaborar neste blog, mas para já vamos tentar ver exatamente o que é que estas palavras significam na prática. 

Vou começar por fazer um unpacking do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), 5ª edição (a edição mais recente aquando da escrita deste post), publicada em maio de 2013.

Esta análise não é exaustiva; vai focar-se nos pontos que com mais frequência parecem dar origem a mal-entendidos e desinformação em relação ao que é descrito clinicamente como "Disforia de Género".

Vamos começar por ver onde é que a condição "Disforia de Género" encaixa:


A primeira coisa que salta à vista é o facto de a disforia de género estar separada da secção referente às disfunções sexuais ("Sexual Dysfunctions"). É também de notar que é a única categoria que não inclui "Dysfunction" ou "Disorder" no seu nome.

Olhando para os membros de cada grupo de trabalho encontramos o seguinte:


Poderá ter sido um descuido que levou ao esquecimento da atualização da denominação nesta secção, ou não. Espantou-me ver Kenneth Zucker como chair desta secção. O nome soava-me familiar e uma pesquisa rápida no google mostrou-me um número considerável de links que ligam este médico a acusações de promoção de "terapias reparativas" para pessoas, principalmente crianças, transsexuais. De notar é também a presença de Ray Blanchard, infame pelo cunho da palavra autoginecofilia e da sua respetiva "tipologia de transexualismo" (que, além de redutora e estigmatizante, ignora por completo a existência de homens transsexuais). É possível que a sua presença nesta secção se cinja ao capítulo referente às disfunções sexuais, mas não me é possível descartar por completo a possibilidade de também ter contribuído para o capítulo referente à disforia de género.

Um bocado mais abaixo podemos encontrar Zucker mais uma vez:

Não é claro qual dos grupos de trabalho terá tido um contributo maior na elaboração do capítulo referente à disforia de género. 

(só comentei os nomes que já conhecia previamente, se alguém reconhecer mais algum destes nomes e tiver algo que considere relevante referir, deixem-me um comentário ou um email!)

Ao ver a lista dos códigos deparei-me com o seguinte:


Não ia dar qualquer atenção a esta secção até reparar que "Transvestic Disorder" pode co-existir com autoginecofilia. Portanto, temos algo que não tem nada a ver com identidade de género (travestismo) misturado com uma condição que "descreve" (pessimamente) vários tipos de mulheres transexuais.

A observação seguinte não está diretamente relacionada com a questão da disforia, mas não consegui deixar de achar curioso o seguinte:


Coisas como discórdias com vizinhos, salário baixo ou ser vítima de um crime constam numa lista de patologias psiquiátricas. Isto ajuda um bocado a colocar em perspetiva o quão "patológicas" serão realmente consideradas as condições descritas no DSM.

Durante o capítulo introdutório, é definido aquilo que é considerado "doença mental":


Achei apropriado incluir também o parágrafo que segue a definição para dar ênfase ao facto de o DSM encorajar os profissionais de saúde a agir da forma que for mais benéfica para os utentes, mesmo que não seja formalizado um diagnóstico do que quer que seja. 

O capítulo referente à Disforia de Género começa com uma breve introdução aos conceitos mencionados ao longo do texto. Mesmo no final, pode-se ler:


Portanto, fica desde o início esclarecido o facto de a disforia se referir ao sofrimento ("distress") proveniente da incongruência entre o género da pessoa e o género que lhe foi atribuído, não à identidade da pessoa. Também é de notar que é reconhecido o facto de nem toda a gente cujo género difere daquele que lhe foi atribuído sofre de disforia (pelo que o que é descrito neste capítulo, então, não se aplicará a essas pessoas). 

O documento segue então para os critérios de diagnóstico, que estão divididos entre disforia em crianças e disforia em adolescentes e adultos. Em relação às crianças, os critérios resumem-se à rejeição de atividades estereotipicamente associadas ao género que foi atribuído à criança juntamente com um desejo forte de ser de um outro género (não necessariamente o género "oposto"). 



Nos adultos, os critérios parecem mais focados nas questões físicas e anatómicas. Em ambos os casos, os critérios de diagnóstico incluem questões físicas, sociais, convicções fortes de pertencer a outro género (diferente do que foi atribuído à nascença) que têm de estar presentes durante, pelo menos, 6 meses e têm de causar sofrimento clínico significativo e/ou dificuldades a nível social e/ou ocupacional. Os critérios prevêem a existência de pessoas intersexo (portadoras de "perturbações de desenvolvimento sexual", para seguir a definição que consta no documento) com disforia de género.

Em relação aos adultos, é referida a possibilidade de uma pessoa com disforia de género optar por não se submeter a qualquer intervenção clínica:


No entanto, também é referido o facto de a maioria das pessoas com disforia de género procurarem e precisarem de intervenção clínica (hormonal e cirúrgica) e que muitas estão em risco de suicídio enquanto não têm acesso às intervenções que precisam.

Em relação aos adultos, é reconhecido o facto de existirem pessoas cuja disforia só se manifesta após a puberdade:

Ou seja, não é necessário uma pessoa "saber desde pequena", ao contrário do que um dos maiores estereótipos sobre a transsexualidade dita. 

É também interessante ver que os autores admitem que diferentes contextos culturais podem interferir no diagnóstico, sendo que em alguns contextos poderá nem ser possível aplicar os critérios:



O documento também prevê a existência de pessoas que, apesar de terem comportamentos, atitudes ou gostos associados ao género oposto, não sobrem disforia:


Ou seja, as pessoas que não se conformam às expectativas sociais do seu género não recebem, apenas por isso, um diagnóstico.

Algo que vejo com alguma frequência é a ideia de que quem tem esquizofrenia não pode ser diagnosticado com disforia de género. No entanto, o DSM diz o contrário:




Rondas bónus! 

Já que tenho o DSM aberto, vamos olhar para outras secções que normalmente são trazidas ao barulho quando se fala sobre transsexualidade.

Bónus 1: Travestismo

Ao contrário do que já vi ser afirmado por algumas pessoas, o DSM não considera o travestismo como uma perturbação. O que consta no DSM é o que chamam de "transvestic disorder", que se encontra dentro da secção das parafilias. No entanto, é feita uma diferenciação entre parafilia:



e perturbações parafílicas:

Ou seja, só são diagnosticados como perturbações os casos em que a parafilia causa uma diminuição da qualidade de vida da pessoa ou causa danos a terceiros (sendo considerado algo normal em qualquer outro caso). Vamos então olhar mais de perto a perturbação de travestismo:


O ato de travestismo tem de causar uma diminuição da função (social, laboral, etc) de um indivíduo para ser considerada uma perturbação;

Outro ponto curioso: 

Portanto, uma mulher transsexual provavelmente não poderá ter fetiches, de acordo com estes critérios. Curiosamente, consideram que a presença de autoginecofilia um ponto a "favor" para um diagnóstico de disforia de género. Seria interessante mostrar isto ao monte de pessoas que dizem que a presença de autoginecofilia anula o diagnóstico de disforia de género (argumento que eu já vi várias vezes a ser feito por quem tenta pintar as mulheres transsexuais como homens tarados).

Outro pedaço de informação que achei interessante:


Consideram que o travestismo pode desenvolver-se e tornar-se disforia, como se o travestismo fosse a causa da disforia. Acho curioso como não colocam a hipótese de, nestes casos, o travestismo poder ser um sintoma, não uma causa, de disforia de género. 

E só mesmo porque eu gosto de ser chato e mandar vir com estes pormenores:


Claro, porque os gays estão todos totalmente serenos com a possibilidade dos seus parceiros gostarem de usar roupa de mulher. Porque os gays são todos assim mente aberta, nada misóginos nem existe uma cultura de masculinidade tão tóxica como no resto da sociedade heteronormativa. Claro.

Bónus 2: Transtorno dismórfico corporal

Isto é algo que vejo a ser comparado e igualado à disforia com alguma frequência. Vamos olhar para os critérios de diagnóstico:


A razão pela qual pode parecer que as pessoas transsexuais encaixam dentro destes critérios é porque, para quem não é transsexual, as questões relacionadas com a imagem corporal (ou seja, com a disforia) não passam de obcessões com "partes do corpo saudáveis". No entanto, esta linha de pensamento só se mantém de pé enquanto não consideramos as pessoas transsexuais como pertencentes ao género a que declaram pertencer. Ou seja, por exemplo, a presença de mamas numa mulher não será algo interpretado como um defeito físico significativo, mas num homem sim. No entanto, enquanto as pessoas não virem um homem transsexual como homem, vão sempre pensar que se trata de uma mulher com problemas de imagem corporal. 

Ao longo do texto referente a esta secção, não é feito qualquer paralelismo ou sequer menção à disforia de género. 

Bónus 3: Homossexualidade

A homossexualidade constava no DSM até 1974, ano em que foi retirada do mesmo na re-edição do manual desse mesmo ano. Fui espreitar na última edição em que a homossexualidade aparecia listada: a segunda edição, editada em 1968. 

Nesse documento, a homossexualidade aparece categorizada como um "Desvio sexual", o que por sua vez se encontra dentro das "perturbações de personalidade e outras doenças mentais não-psicóticas" (tradução livre de "Personality disorders and certain other non-psychotic mental disorders"):



O documento não elabora mais do que isto, mas chega para ver que o que constava no manual sobre a homossexualidade não se compara ao que hoje em dia se pode ler em relação à disforia de género. Para ser diagnosticada com disforia de género, uma pessoa tem de ter a iniciativa de declarar o seu género e tem de existir sofrimento clinicamente relevante, que é o que vai ser diagnosticado e tratado. Ou seja, é um diagnóstico centrado no indivíduo que sofre de disforia e nas suas necessidades. 

Em contraste, o diagnóstico de homossexualidade centra-se em julgamentos morais daquilo que é considerado "atos sexuais (...) sob circunstâncias bizarras" e "comportamento sexual normal". 

Passando por Cis: Uma Reflexão

Sinto que se passou uma eternidade desde a última vez que escrevi por aqui. Foram só (quase) dois meses, mas foram tão intensos e preenchidos com trabalho que tenho andado com a sensação que se passou meio ano desde a última vez que tive tempo para relaxar e escrever um bocado. Foram os últimos 2 meses de trabalho para a minha dissertação de mestrado, para a qual ando a trabalhar a sério desde setembro do ano passado. Tem sido uma experiência interessante, não só obviamente pela parte académica, mas também pelo facto de ser a primeira vez em que estou inserido num contexto em que ninguém sabe que sou trans.

Até ter começado este trabalho podia dizer que toda a gente que me conhecia sabia que eu era trans. Familiares, colegas de curso, amigos de infância, amigos de outros círculos, não era segredo para ninguém. Quando cheguei ao local onde iria desenvolver o trabalho para a dissertação, tinha tudo o que é documento já mudado, era socialmente visto como um rapaz, não via qualquer motivo para anunciar que era trans a nenhum dos meus colegas de trabalho. Portanto, não o fiz. E é estranho. Estou tão habituado ao facto de ser trans ser algo banal que me senti alienado e censurado por mim próprio em várias situações. Na língua inglesa existe o termo "stealth" para designar a condição de se ser trans sem que ninguém saiba, como se estivéssemos a "voar debaixo do radar" de deteção das pessoas. No entanto, tenho vindo a descobrir que poucas pessoas possuem tal "radar".

Ocorreram duas situações em que tive um pequeno deslize e acabei por dizer coisas que, achava eu, me iriam "denunciar", ou pelo menos fazer as pessoas suspeitar. O primeiro foi ter comentado que tinha, em tempos, tido cabelo comprido. Agora dito desta forma não parece grande coisa, há montes de homens com cabelo comprido, mas na altura dei uma importância demasiadamente grande a este lapso. Uns tempos mais tarde estava cheio de pressa para sair, tinha de apanhar o autocarro a tempo de apanhar o centro de saúde aberto para poder tratar da injeção das hormonas. Espera, eu disse isto alto e toda a gente ouviu? Oops.

Foram dois pequenos momentos de pânico, até me aperceber que ninguém fez qualquer tipo de ligação entre o que eu disse e a possibilidade de eu ser trans. Desde aí tenho andado a testar as águas, a tentar descobrir quanta informação é que consigo revelar às pessoas até elas dizerem alguma coisa. O que tenho descoberto é precisamente o oposto daquilo que eu pensava que ia acontecer: por muito que eu conte, ninguém suspeita de nada. 

Por esta altura os meus colegas de trabalho já sabem de tudo o que eu fiz durante a minha transição, só não sabem que foi num contexto de transição. Sabem que no passado as pessoas me confundiam com uma rapariga, em grande parte devido ao cabelo comprido que tinha na altura. Sabem que ando a fazer uma terapia hormonal porque o meu corpo não produz testosterona suficiente. Sabem que já tive mamas e que fiz uma mastectomia para as retirar. Sabem que vou fazer uma revisão à mastectomia nos próximos dias. Mas não sabem que sou trans, nunca juntaram as peças.

O que me está a causar estranheza (de uma forma... positiva, suponho?) é a forma como as pessoas reagem a estes pedaços de informação descontextualizada que lhes vou dando. Eu já tinha (e tenho) no passado falado com pessoas cis sobre as cirurgias e procedimentos clínicos que faço ou planeio fazer, explicitando que são num contexto de transição e de transexualidade. Na maioria dos casos, as reações são de estranheza, como se tudo relacionado com a transição fosse alienígena e extraordinário. Na melhor das hipóteses dizem-me que acham tudo isto muito complicado e difícil e dizem ter uma admiração enorme por as pessoas trans terem a coragem de fazer tudo isto e que nunca se imaginariam a passar pelo mesmo; na pior das hipóteses dizem que é tudo muito estranho, confuso e horrível.

Quando omito a parte da transexualidade, as reações são completamente diferentes. De todas as vezes que revelei algo, alguém dizia que tinha um amigo ou familiar (ou eles próprios) que tinha passado por algo semelhante. Uma tinha uma prima que teve um problema nos ovários quando era jovem e agora também toma hormonas para poder ter os níveis hormonais normais. Depois o amigo do outro teve um acidente que o deixou também assim com umas cicatrizes grandes no peito. E a outra ainda comentou que teve de retirar um tumor de uma das mamas e que o procedimento deve ter sido parecido com o meu; o meu foi só um bocado mais "radical", mas no fundo era tudo o mesmo. Subitamente, as pessoas afinal já têm referências às quais comparar aquilo que eu fiz durante a minha transição. Afinal, já não são coisas assim tão extraordinárias, são coisas que acontecem aos amigos, familiares, a nós próprios. Consigo falar com elas sobre a recuperação post-op, sobre os inconvenientes de tomar uma medicação durante toda a vida, sobre como lidar com cicatrizes visíveis - tudo sem receber expressões vazias acompanhadas de "pois, isso é tudo tão estranho, não faço ideia de como será". Subitamente já não me sinto como um "outro", um outlier.

É impressionante, e triste, a forma como a palavra "transexual" nos torna automatica e acriticamente objetos de estranheza com os quais nenhuma "pessoa normal" se consegue identificar. Na realidade, o que nós fazemos não é assim tão diferente. É mesmo uma pena as pessoas só o verem quando lhes omitimos a parte da transexualidade.

Tudo isto me faz pensar no grau de abertura que realmente quero ou não ter em relação à minha condição como pessoa transexual. Se por um lado gosto de ser aberto em relação a isto, confesso que a sensação de ser visto como um ser humano completamente "normal" (na perspetiva da sociedade, claro) e com quem as pessoas se conseguem identificar é extremamente agradável. Eu sempre tinha pensado que nunca conseguiria construir uma relação de amizade com alguém caso omitisse esta parte de quem sou, mas neste momento já não sei. A palavra "transexual" queima muitas pontes e eu já não sei se isso sempre vale a pena ou não.

Testosterona: Medicamentos e Outras Nerdices

Este é o segundo post numa série sobre terapia hormonal com testosterona. No anterior foi dada uma introdução ao funcionamento geral das hormonas no nosso corpo. Aqui vamos ver de que forma é que conseguimos administrar essas hormonas no nosso corpo, opções de medicamentos e as diferenças entre eles.

(Este post acabou por ficar um bocado mais "nerd-ish" do que eu queria, mas prefiro assim do que "estupidificar" as explicações)

Mais uma vez quero reiterar que eu não sou médico nem farmacêutico e que a informação neste blog não deve ser usada em substituição de profissionais de saúde.


A maioria dos medicamentos que usamos na nossa terapia hormonal vêm na forma de ésteres de testosterona, portanto antes de partir para a testosterona propriamente dita, acho útil introduzir o conceito de "éster".


"Éster" é um nome usado na nomenclatura da química orgânica para designar uma molécula que resulta da condensação (junção) de um álcool e de um ácido carboxílico.


Neste esquema, o R1 e R2 representam outro grupo molecular que contenha um átomo de carbono  -ou seja, outra molécula qualquer. Existem vários ésteres diferentes - cipionato, enantato, undecanoato, etc - com tamanhos diferentes.

Para o propósito deste post, R1 ou R2 será uma molécula de testosterona, ou seja, adiciona-se uma molécula de testosterona num dos locais do éster. Isto vai fazer com que o resultado final seja uma molécula de testosterona com uma "cauda" de éster lá pegada. 
O objetivo deste processo é tornar a testosterona solúvel em óleo e assim abrandar a taxa de libertação da testosterona para a corrente sanguínea - existem formulações de testosterona em água em vez de óleo, mas duram muito pouco tempo, apenas algumas horas, e teríamos de fazer injeções diárias para manter níveis de testosterona constantes ao longo do tempo. Regra geral, quanto mais longo é o éster que está "pegado" à molécula de testosterona, mais solúvel esta é em óleo. Em simultâneo, quanto mais longo é o éster, menos solúvel em água a molécula se torna. O nosso sangue é, em termos simples, uma solução aquosa, daí podemos concluir que quanto mais longo é o éster, mais lentamente este vai entrar na corrente sanguínea. 

Na prática, isto tem duas implicações:
1) quanto mais longo for éster, mais tempo a testosterona demora a entrar na corrente sanguínea, o que significa que o intervalo entre as injeções pode ser maior;
2) quanto mais curto for o éster, mais rapidamente entra na corrente sanguínea, o que vai gerar um "pico" alto de testosterona logo após a injeção.

O que acontece quando fazemos uma injeção intramuscular de algum medicamento com ésteres de testosterona é a criação de um pequeno "depósito" oleoso dentro do músculo. Ao longo do tempo, o músculo está em contacto com o sangue (através dos vasos sanguíneos) e, ao passar pelo depósito oleoso, o sangue vai "resgatar" algumas das moléculas (testosterona+éster) e traze-las para a corrente sanguínea. Já no sangue, existem proteínas que vão "cortar" a cauda de éster, libertando a molécula de testosterona, que fica livre para ir provocar todos os efeitos que normalmente provoca no corpo humano. A velocidade a que isto acontece está dependente, principalmente, do tamanho do éster. 


Vias de Administração
Existem vários métodos para introduzir testosterona no nosso corpo. 

O mais comum costuma ser por via intramuscular injetável
Como foi descrito acima, este método consiste em criar um depósito de testosterona dentro de um músculo, que é então lentamente libertada ao longo do tempo. Normalmente a injeção é dada num músculo grande, no glúteo ou na coxa. A principal vantagem desta via é o facto de evitar a passagem da testosterona pelo fígado, prevenindo assim as complicações que podem surgir relacionadas com esse órgão. No entanto, tem a desvantagem de... bem, de ser uma injeção. Para quem tem aversão a agulhas pode ser um problema, principalmente se houver a perspetiva de continuar o tratamento durante meses ou anos. Também existe o problema de serem criados "picos" e "vales" na quantidade de testosterona. Ou seja, pouco tempo após uma injeção os níveis de testosterona "disparam" para quantidades elevadas, e pouco tempo antes da injeção seguinte há o risco de os níveis estarem muito baixos. Idealmente, o intervalo entre as injeções será o adequado para que os vales não sejam muito baixos, mas que os picos também não sejam exagerados. 

O segundo método mais comum é por via transdérmica, ou seja, testosterona em gel, creme ou pensos.
Nestes casos, a testosterona encontra-se no estado livre, sem ésteres associados. Por causa disto, a testosterona é rapidamente libertada e é preciso aplicar o gel/creme/penso todos os dias. Normalmente o gel/creme/penso tem de ser aplicado em zonas específicas do corpo e é preciso ter cuidado de forma a não transmitir o gel ou creme a outras pessoas ou animais através de contacto físico. Existe também o problema de poderem ocorrer reações alérgicas aos pensos, principalmente em quem tem peles mais sensíveis. 
Uma vantagem é o facto de se evitar os picos e vales associados às injeções, sendo possível manter uma dose mais estável ao longo do tempo (assumindo que a pessoa aplica o gel/creme/penso todos os dias à mesma hora).

Existe também a via oral, que é menos comum devido à toxicidade que causa ao fígado.

Uma nota importante sobre a forma como cada pessoa toma a sua medicação: não existe um "valor padrão" que é o correto para toda a gente. Existem posologias mais comuns (ex: é bastante comum ver pessoas a fazer uma injeção de 250mg de testosterona a cada 3 semanas) mas tal não significa que seja essa a forma ideal para toda a gente. Se estiverem a fazer a vossa terapia hormonal de forma diferente, não se preocupem demasiado. O importante é fazerem análises periódicas e verificarem que os vossos níveis estão dentro daquilo que é suposto - algo que o vosso médico vos dirá. 


Vamos então olhar para os medicamentos atualmente disponíveis cá em Portugal. Uma pesquisa por "testosterona" no site da Infarmed devolve-nos 7 medicamentos que contêm testosterona:

Andriol-T
Cápsulas moles de undecanoato de testosterona.

Este medicamento não está a ser comercializado em Portugal neste momento, nem eu me recordo de ver muitas menções ao mesmo por homens trans em outros países. Formulações orais de testosterona costumam ter uma "má reputação" por serem bastante agressivas para o fígado. Este medicamento em particular contém undecanoato de testosterona e é, em teoria, absorvido no intestino delgado, o que evitaria os efeitos negativos para o fígado. No entanto, tem a desvantagem de ser rapidamente absorvido, o que significa que teríamos de tomar múltiplas cápsulas por dia (o que foi explicado acima sobre ésteres não se aplica neste caso, uma vez que a via de administração não é intra-muscular, mas sim oral).

Testim
Testosterona em gel.

Este medicamento parece ser a única formulação em gel de testosterona à venda em Portugal de momento. Neste caso, a testosterona não está ligada a nenhum éster, encontrando-se no gel já na forma livre. Isto significa que rapidamente toda a testosterona é absorvida e usada, sendo essa a razão pela qual o gel tem de ser aplicado diariamente. Além disso, apesar de cada bisnaga conter 50mg de testosterona, apenas cerca de 10% é absorvida pela pele, resultando numa entrega de 5mg de testosterona por dia.

Este tipo de medicamento normalmente é preferido por quem tem aversão a agulhas (uma vez que a outra alternativa é testosterona injetável), mas tem a desvantagem de ser muito mais caro. Há também quem se sinta incomodado por ter de aplicar o gel todos os dias e ter de lidar com os cuidados associados ao mesmo (ex: ter cuidado para não passar gel para outras pessoas através de contacto físico). 

Um mito que vejo regularmente em relação ao gel é a ideia de que os efeitos da testosterona vão ser mais rápidos nas zonas onde o gel é aplicado (por exemplo, se aplicar o gel no braço esquerdo vão crescer lá mais pêlos do que no braço direito). Isto por vezes leva as pessoas a achar que é boa ideia aplica-lo na cara para acelerar o aparecimento de barba. Isto não é uma boa ideia! A testosterona só exerce os seus efeitos quando entra na corrente sanguínea, e quando tal acontece fica disponível por onde quer que seja que o sangue passe - ou seja, no corpo todo. Não interessa onde é que o gel é aplicado, eventualmente a testosterona vai chegar a todas as partes do corpo. Aplica-lo na cara não serve de nada (e pode ser uma má ideia, uma vez que o gel contém álcool, não sendo muito recomendável aplicar diariamente álcool na cara...).

Testogel e Androgel

Estes dois medicamentos são também formulações em gel. Tudo o que foi dito em relação ao Testim aplica-se a estes dois. No entanto, ao contrário do Testim, estes não se encontram de momento a ser vendidos em Portugal.

Nebido
Undecanoato de testosterona injetável.

O undecanoato é um dos ésteres mais longos que se pode encontrar na medicação com testosterona. Por essa razão, este medicamento só precisa de ser administrado entre 10 em 10 ou 12 em 12 semanas. 
Molécula de undecanoato de testosterona

O comprimento deste éster faz com que não só dure imenso tempo, mas também que o "pico" de testosterona logo depois da injeção não seja tão alto como no caso de outros injetáveis. Ou seja, o Nebido provoca níveis de testosterona estáveis durante quase 3 meses com apenas uma injeção. A desvantagem? É caro. Além disso, a ideia de levar com uma injeção intramuscular de 4mL pode ser intimidante para algumas pessoas. 


Testoviron Depot
Enantato de testosterona injetável.

O enantato é um éster mais curto em relação ao undecanoato, mas é longo o suficiente para durar bastante tempo.
Molécula de enantato de testosterona
Após a injeção, ocorre um "pico" de testosterona, que vai sendo então libertada ao longo de 2 a 4 semanas (consoante a pessoa). Em conjunto com o Sustenon, este medicamento parece ser dos mais comuns cá em Portugal. 

Sustenon
Mistura de 4 ésteres de testosterona injetável.

O sustenon contém propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato de testosterona. Cada um destes ésteres tem tamanhos diferentes, o que deveria, em teoria, dar origem a diferentes taxas de libertação e assim estabilizar os níveis de testosterona ao longo do tempo. Na prática, este medicamento é usado exatamente da mesma forma que o Testoviron: uma injeção a cada 2-4 semanas. Nunca vi mencionada qualquer diferença entre a utilização e efeitos de Sustenon e Testoviron, havendo até quem os utilize indiferenciadamente. 

Hormonas 101

Antes de começar: quero frisar que eu não sou médico e não tenho formação em medicina. A informação aqui contida deve ser usada apenas para fins educacionais e nunca em substituição de consultas com médicos qualificados. Se tiverem qualquer dúvida clínica, perguntem ao vosso médico. 

Dito isto, gostava de partilhar um bocado da informação que fui acumulando sobre e terapia hormonal com testosterona e sobre hormonas em geral. 

Começando pelo básico - o que é uma hormona? 
Uma hormona é uma molécula sinalizadora, ou seja, serve para transportar sinais pelo corpo. As hormonas são produzidas por glândulas e viajam através do sistema circulatório (veias e artérias) até ao local onde têm de deixar a sua mensagem. 
Exemplos de glândulas que produzem hormonas incluem: tiróide, hipófise, glândulas suprarrenais e gónadas (testículos ou ovários). 

Existem imensos tipos de hormonas diferentes e que regulam imensos fenómenos, entre os quais: metabolismo, crescimento, sono, humor, reprodução, etc. O conjunto de todas as hormonas e das glândulas que as secretam é conhecido como o sistema endócrino.

Mas como é que as hormonas sabem onde é que têm de entregar as suas mensagens? 
Cada hormona tem um tipo de recetor específico e que só existe em locais específicos do corpo. Esses recetores são moléculas que se encontram, normalmente, na superfície das células. Quando uma hormona se liga a um recetor, vai desencadear uma série de mudanças na célula que culminam em algum tipo de efeito a curto, médio ou longo prazo. As hormonas só podem fazer os seus efeitos se se ligarem aos recetores adequados - ou seja, se esses recetores por alguma razão estiverem todos ocupados, indisponíveis ou ausentes, as hormonas não fazem efeito nenhum. 

Ilustração da interação hormona-recetor


Há hormonas que se podem ligar a recetores diferentes, e há recetores que podem reconhecer diferentes hormonas. No entanto, os efeitos em cada caso podem ser diferentes. Por exemplo, se a hormona "A" se ligar ao recetor "1" pode induzir efeitos diferentes caso a mesma hormona se ligasse ao recetor "2". Da mesma forma, se o recetor "1" receber a hormona "A" vai causar efeitos diferentes de que se tivesse recebido a hormona "B". Existem imensas hormonas e imensos recetores diferentes, pelo que a combinação de diferentes hormonas com diferentes recetores dá origem a um número enorme de interações e efeitos induzidos pelas hormonas. 

A especificidade das hormonas e recetores é mediada, principalmente, pela forma e geometria, embora possa haver alguma adaptação e variação.


E como é que o corpo sabe que hormonas é que tem de produzir?
O nosso corpo tem sistemas de auto-regulação hormonal, a maioria funciona como um mecanismo de feedback negativo. Pensem neste mecanismo como a regulação de uma torneira quando estão a tomar banho: se se sentirem a escaldar, desligam um bocado a torneira da água quente. Quando começam a sentir frio, ligam a quente até estarem confortáveis com a temperatura do vosso chuveiro.

Ou seja, quando o corpo deteta que tem quantidades de hormona "A" a mais, deixa de a produzir (ou produz níveis mais baixos). Da mesma forma, se detetar que não há hormona "A" suficiente no sangue, começa a produzir mais. As formas como o corpo deteta os níveis hormonais são complexas e não completamente compreendidas atualmente, mas sabe-se que funcionam e que nos mantêm saudáveis (na ausência de condições patológicas, claro). 

Testosterona e Estrogénio - Esteróides Sexuais
Esteróides sexuais são as hormonas que interagem com recetores de androgénios ou estrogénios. Incluem os androgéneos, estrogénios e progestágenos. Dessas, as mais "famosas" são, respetivamente, a testosterona, o estradiol e a progesterona. Estas hormonas são produzidas, principalmente, nos gónadas (testículos ou ovários), mas também são produzidas em menores quantidades nas glândulas suprerrenais, tecido adiposo, fígado e em outros tecidos. 

Uma nota sobre esteróides: muita gente parece ficar alarmada quando ouve dizer que a testosterona e o estrogénio são esteróides. Existe algum estigma em relação a esta palavra por causa das notícias que reportam o abuso de esteróides por atletas. Na realidade, "hormona esteróide" significa apenas que é uma hormona que é fabricada a partir do colesterol. Outros exemplos de hormonas esteróides são os glicocorticóides (participam na regulação do sistema imunitário) ou a aldosterona (contribui para o bom funcionamento dos rins). 

Comparação entre as moléculas de colesterol, testosterona e estradiol.Como podem ver, são bastante parecidas entre elas


Apesar de se dizer que a testosterona é a "hormona masculina" e que o estradiol é a "hormona feminina", toda a gente produz alguma quantidade de ambas as hormonas. A proporção entre uma e outra é que acaba por ser bastante diferente de acordo com o tipo de gónadas que uma pessoa tem. Aquando da puberdade, uma pessoa vai começar a produzir testosterona ou estradiol em maiores quantidades conforme tenha testículos ou ovários, respetivamente.

Um ponto importante sobre estas hormonas é o facto de toda a gente, independente do sexo, ter recetores para ambas as hormonas no seu corpo.

O Papel dos Esteróides Sexuais
Os esteróides sexuais têm um papel crucial no desenvolvimento das características sexuais secundárias de uma pessoa. 

Características sexuais secundárias são características que se desenvolvem a partir da puberdade devido ao efeito dos esteróides sexuais. No entanto, não têm nenhum papel direto na reprodução. Exemplos incluem: crescimento de pêlo facial ou corporal, mamas, o timbre da voz, o padrão de distribuição da gordura corporal, etc. 

Características sexuais primárias são aquelas que estão presentes desde a nascença, desenvolvem-se mais na puberdade e intervêm diretamente na reprodução. Basicamente, são os órgãos genitais externos e os gónadas (e todas as estruturas associadas aos mesmos). 

Durante a puberdade, os androgénios vão induzir mudanças como o aumento da pilosidade facial e corporal, o abaixamento do timbre da voz, desenvolvimento da massa muscular, etc. Ou seja, características geralmente associadas ao sexo masculino.

Por sua vez, os estrogénios vão causar o crescimento de mamas, o início do ciclo menstrual (se a pessoa tiver os órgãos internos necessários para que tal aconteça) e todas as características geralmente associadas ao sexo feminino. 

Como é que o corpo decide se deve produzir mais testosterona ou estradiol?
Como já referido, estas hormonas são produzidas nos gónadas. No entanto, não são os gónadas que "decidem" em relação à quantidade de hormonas que o corpo produz. A regulação destas hormonas é um trabalho de equipa entre os gónadas e o hipotálamo. 

O hipotálamo é uma região do cérebro que é extremamente importante na regulação hormonal - não só das hormonas sexuais. A temperatura corporal, fome, sede ou sono são tudo coisas controladas pelo hipotálamo. É uma ponte de ligação entre o sistema nervoso e o sistema endócrino.



Localização do hipotálamo. Imagem roubada daqui » http://brainmadesimple.com/hypothalamus.html

Quando o hipotálamo deteta níveis baixos de testosterona ou estrogénio no sangue, liberta uma hormona chamada Gonadotropin-releasing hormone (GnRH), que viaja até à hipófise (uma glândula que fica muito perto do hipotálamo). Esta hormona tem como função, tal como o seu nome sugere, estimular a libertação de gonadotropinas. 

Existem duas gonadotropinas: hormona luteinizante (LH) e a hormona folículo-estimulante (FSH, do inglês Follicle-stimulating hormone). Tanto a LH como a FSH são produzidas na hipófise e viajam até aos gónadas. Lá, a FH estimula a produção de testosterona ou estrogénio (conforme a pessoa tenha testículos ou ovários, respetivamente). A FSH promove a iniciação da maturação dos gâmetas (espermatozóides ou ovócitos).

No caso contrário, caso o hipotálamo detete níveis elevados de testosterona ou estrogénio, inibe a libertação de GnRH, o que por sua vez vai inibir a libertação de LH e FSH para o sangue, diminuindo assim a produção de testosterona ou estrogénio. 

(1) os gónadas produzem pouca testosterona ou estrogénio
(2) o hipotálamo, em resposta aos níveis hormonais baixos, produz GnRH, que é enviado para a hipófise
(3) a hipófise liberta LH e FSH para a corrente sanguínea
(4) a produção de testosterona ou estrogénio é aumentada 


E como é que isto tudo interage com a terapia hormonal com testosterona?
Durante a terapia hormonal com testosterona, estamos a introduzir testosterona no nosso corpo. Isto, por si só, vai causar o desenvolvimento das características sexuais secundárias. Como dito anteriormente, todas as pessoas têm recetores para todas as hormonas, daí a testosterona conseguir exercer os seus efeitos num corpo que, naturalmente, teria níveis de testosterona muito mais baixos. 

As mudanças induzidas pelas hormonas podem acontecer a curto, médio ou longo prazo. Por exemplo, um dos efeitos da testosterona é a estimulação dos folículos pilosos (responsáveis pelo crescimento de pêlo). Isto, normalmente, demora bastante tempo (meses ou anos) porque acontece pela mudança da expressão genética das células dos folículos, e tudo o que envolva mudar a forma como os nossos genes se comportam demora bastante tempo. 

Algo importante a considerar é o facto de existir um número limitado de recetores hormonais no nosso corpo. Se houver mais moléculas de testosterona do que recetores, as moléculas extra não estão lá a fazer nada, porque não têm forma de se ligar a lado nenhum. Isto significa que existe um ponto a partir do qual não adianta aumentar a dose da medicação que tomamos na nossa terapia hormonal. Os efeitos das hormonas e o timming com que aparecem não é algo estritamente linear. 

Aliás, a partir de certo ponto pode ser contraproducente aumentar a quantidade de testosterona que introduzimos no nosso corpo, uma vez que parte dela pode ser convertida de volta a estrogénio. Este é outro mecanismo de regulação hormonal que o nosso corpo pode accionar caso detete níveis demasiado elevados de testosterona. Existe uma molécula chamada aromatase que é importante para a síntese de estradiol. Essa molécula pega numa molécula de testosterona e transforma-a em estradiol. Portanto, ao achar que estamos a aumentar o nosso nível de testosterona, podemos estar é a aumentar o nível de estradiol.

Mecanismo geral da conversão de testosterona em estradiol. Imagem roubada da Wikipédia.


Ao fim de algum tempo da terapia hormonal, o equilíbrio hormonal no nosso corpo começa a mudar e o hipotálamo começa a aperceber-se de que já existe uma quantidade considerável de esteróides sexuais em circulação. Isto vai desencadear o processo de feedback negativo descrito acima, a produção de GnRH vai diminuir, o que por sua vez vai culminar numa diminuição da produção de estrogénio e na interrupção do ciclo menstrual. Isto costuma acontecer dentro dos primeiros 6 meses da terapia hormonal (mas este prazo pode variar consoante a pessoa). 

Uma nota/curiosidade em relação à regulação do mecanismo de feedback: cá em Portugal, tanto quanto sei, ainda não se usam os chamados "bloqueadores de puberdade". Estes são compostos que podem ser dados a uma pessoa que ainda não tenha entrado (ou que esteja ainda nas fases iniciais) na puberdade. O que essa medicação faz é bloquear os recetores de GnRH de forma a que a hipófise não receba esse sinal e nunca produza as gonadotropinas, o que por sua vez vai inibir a produção dos esteróides sexuais e assim atrasar o início da puberdade. Daí esses compostos também serem conhecidos como "bloqueadores de GnRH" ou "análogos de GnRH".

Fica aqui as bases para começar a compreender melhor o funcionamento da terapia hormonal com testosterona (ou com estrogénio! Os princípios básicos aplicam-se na mesma, embora existam algumas diferenças; poderá ser algo a explorar neste blog no futuro). Num post futuro vou continuar a elaborar mais sobre os efeitos da testosterona e sobre os tipos de medicação usados mais frequentemente.

Carta aberta aos pseudo-humoristas que andem por aí

Caríssimxs humoristas-wannabe,

É com desagrado (mas, infelizmente, sem surpresa) que vejo que ainda se aproveitam de plataformas mediáticas e do disfarce do "humor" para perpetuar ideias discriminatórias e difundir preconceitos. Este fenómeno é algo ainda relativamente raro cá em Portugal (devido, creio, à falta de visibilidade das pessoas transsexuais no país) mas depois de ver uma peça de "humor" sobre o assunto (nem me vou dignar a mencionar exatamente onde, não vos quero dar audiência) não consegui permanecer silencioso.

A peça desenvolvia-se à volta de uma entrevista de uma suposta mulher transsexual, tendo como ponto de partida a situação da Caitlyn Jenner. Invariavelmente, e mesmo sendo uma entrevista fictícia, a coisa focou-se nas operações e na tentativa de retratar a mulher como super-masculina - um homem disfarçado. 

Pode parecer inofensivo atacar uma Caitlyn Jenner - uma mulher rica, famosa, num local onde os comediantes de meia-tigela não se ouvem. Mas nós, a grande maioria das pessoas trans, não somos a Caitlyn Jenner. Não estamos imunes às consequências que este tipo de mensagens passam à população. Somos pessoas que, demasiadas vezes, somos despedidas dos nossos empregos (se os conseguirmos arranjar de todo), abandonadas pelas nossas famílias e ignoradas pelos sistemas de saúde. Há quem se vá safando, hoje em dia são cada vez mais as histórias com finais felizes, mas não deixamos de ser uma população com elevadíssimas taxas de tentativas de suicídio, com alta incidência de depressões, discriminações e - sim - alvos fáceis para piadolas parvas. 

Não é preciso muito trabalho, inteligência ou originalidade para fazer piadas à nossa custa e para transformar as nossas vulnerabilidades em punch-lines. Ninguém quer saber se ofendem "os travecos", se fazem pouco da mulher com voz grave ou se se aproveitam das reações de nojo das pessoas quando confrontadas com as "operações de mudança de sexo". Ninguém quer saber. Mesmo quando são chamados à atenção chovem "justificações": é sátira, não sejam tão sensíveis, é só um bocado de humor!

Isso não é humor, é bullying. 

Fazer piadas que perpetuam o status quo de discriminação de um grupo de pessoas extremamente vulneráveis repetindo os mesmos mantras preconceituosos de sempre não passa de bullying, e quem o faz não passam de pessoas que apenas se deram ao trabalho de encontrar uma presa fácil sem pensar duas vezes nas pessoas que realmente podem estar a afetar.

Ninguém está a salvo do humor, é um facto. Nem estou a defender que não se deva fazer humor à volta das pessoas transsexuais. No entanto, há formas inteligentes de o fazer. É possível fazer humor à volta deste tema sem ser um idiota completo - aliás, é algo que eu tento incorporar no meu ativismo ou até mesmo em momentos mais pessoais, entre amigos e familiares. Eu sou um fã enorme do humor, tanto como entretenimento puro como como forma de intervenção social. Eu adoro fazer piadas comigo próprio, apontar absurdidades do processo de transição ou simplesmente rir-me de situações mais graves como forma de lidar com as coisas. 

O humor pode ser uma ferramenta extremamente útil para a mudança de mentalidades. Ou, no mínimo, pode não ajudar a deitar abaixo um setor da população que já se encontra no fundo da hierarquia social. Tem é de ser bem feito e minimamente inteligente. 

Só para deixar um exemplo:




É possível fazer peças humorísticas que façam as pessoas pensar e questionar. O humor não tem de se ficar pelas gargalhadas vazias, e custa-me ve-lo a ser usado como justificação e meio de perpetuação de ideias que afetam de forma tão negativa as pessoas transsexuais (ou qualquer outra população que calhe de ser o alvo da piada do dia). Eu não gostava de ver o humor à volta das pessoas trans desaparecer, gostava era de não o ver a tornar-se em mais um veículo para a discriminação. Recuso-me a aceitar standards tão baixos ao ponto de considerar um discurso de ódio e ridícularização transfóbica como humor a sério. 

Ao reciclar piadas que reforçam ideias preconceituosas, só vão estar a entreter e a validar pessoas preconceituosas. Eu entretanto fico a aguardar pelo dia em que se torne comum fazer piadas à custa de pessoas e de pseudo-humoristas transfóbicos. 

Suicídios Trans são Assassínios

Foi publicado ontem um artigo no dezanove a reportar o suicídio de Santiago Martinez, homem transexual com 30 anos residente em Lisboa. De acordo com o testemunho de Nicole Ferreira, amiga do Santiago, as dificuldades económicas associadas à transição, maus resultados cirúrgicos, depressão e preconceito terão sido fatores importantes para este desfecho trágico. É profundamente lamentável que se tenham reunido as condições que levaram a que o Santiago tenha optado por terminar a sua própria vida.

Notícias sobre suicídios de pessoas trans são, infelizmente, relativamente comuns. Tem havido um aumento no número deste tipo de notícias (provavelmente devido ao aumento da visibilidade e consciencialização entre a população) mas julgo ser a primeira vez que vejo algo semelhante relativo a uma pessoa portuguesa nos últimos anos. Faz pensar na quantidade de pessoas relativamente próximas que terão enveredado pelo mesmo caminho mas que permaneceram invisíveis, ou nas que poderão estar a caminho do mesmo mas que permanecem igualmente silenciosas.

Da última vez que este assunto foi mencionado no blog, referi-me a Leelah Alcorn como tendo sido vítima de transfobia. Algumas pessoas tentaram corrigir-me e dizer que não se tratava de um caso de transfobia uma vez que tinha sido a própria Leelah a tirar a sua própria vida, mas a minha opinião permanece inalterada. 

O suicídio da Leelah Alcorn, do Santiago Martinez e de todas as pessoas trans que se suicidaram devido à sua transição são casos de transfobia, crimes de ódio e negligência. 


Quando...

  • 46% e 42% dos homens e mulheres transexuais (respetivamente) tentam ou cometem suicídio [1] (comparativamente a 1.6% da população em geral[2])
  • está demonstrado que as tentativas e ideações suicidas reduzem drasticamente com a inclusão social, apoio familiar[3], acesso a cuidados de saúde adequados e facilitação da adequação dos documentos legais à identidade da pessoa [4]
  • apesar disto, as pessoas transexuais continuam a ser alvo de chacota, ridículo, "piadas" dezumanizantes, acusadas de perversão e fraude [preciso mesmo de referências para isto?]
  • a única unidade cirúrgica especializada do sistema nacional de saúde não é transparente nem com os utentes transexuais nem com os profissionais de saúde que os acompanham [5]
  • o ministério de saúde considera que a resposta atual do SNS é eficaz e adequada [5], contrastando com o desespero das pessoas transexuais que estão há anos à espera de uma resposta ou de uma chamada para cirurgia

... é-me impossível não considerar os suicídios de pessoas trans como casos óbvios e extremos de transfobia. 

As pessoas não optam por se suicidar assim do nada. Quando tal acontece é porque a pessoa já terá esgotado quaisquer outras alternativas e esperanças de uma vida melhor. Todo o clima hostil e dezumanizante em relação às pessoas trans é a causa destas mortes. São assassínios de pessoas trans por uma sociedade profundamente transfóbica que nos diz que as nossas vidas pouco ou nada valem.

As nossas vidas têm importância. O mundo à nossa volta ainda vai demorar bastante a mudar e ver isso mas, entretanto, há formas de sobreviver. Existem pequenas redes de apoio, pequenos grupos de pessoas aqui e ali, dispersos mas sempre disponíveis para ajudar. Existem pessoas a revoltar-se e a tentar construir um futuro melhor. Existe um futuro para cada um de nós.

Lista de Médicos e Psicólogos que Lidam com Pessoas Trans




Consulta de Sexologia Clínica (avaliações, acompanhamento psicológico, etc)


Serviço Nacional de Saúde
Porto

Centro Hospitalar São João
Alameda Prof. Hernâni Monteiro
4200–319 Porto
+351 225 512 100
geral@chsj.min-saude.pt
http://portal-chsj.min-saude.pt/

Central de Consultas
+351 225 512 266
+351 225 512 375

Consulta de Psiquiatria
+351 225 512 174

Consulta de sexologia clínica: Drª Márcia Mota

----------------------------------------------------------------------------

Hospital de Magalhães Lemos
Rua Professor Álvaro Rodrigues,
4149-003 Porto
hml@hmlemos.min-saude.pt
http://www.hmlemos.min-saude.pt/
Telefone: 226 192 400

Consulta de sexologia clínica: Drª Zélia Figueiredo, Drª Cristina Coelho

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Lisboa


Hospital de Santa Maria
Avenida Professor Egas Moniz
1649-035 Lisboa
contactcenter@chln.min-saude.pt
http://www.hsm.min-saude.pt/
Telefone fixo: 21 780 5000
Telefone móvel: 96 590 5000

Marcação de consultas externas:
21 780 5100
21 780 5200

Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental (onde se inclui o serviço de Sexologia)
Telefone: 21 780 5143

-------------------------------------------------------------------------------

Hospital Júlio de Matos/Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa
Av. do Brasil, 53
1749-002 Lisboa
geral@chpl.min-saude.pt
Telefone: 217 917 000

Consulta Externa
Tel: 217 917 150
adminconsulta@chpl.min-saude.pt

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Coimbra


Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Praceta Prof. Mota Pinto
3000-075 COIMBRA
PORTUGAL
Telefone: [+351] 239 400 400
http://www.chuc.min-saude.pt/index.php

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Fora do SNS (hospitais e clínicas privadas)

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Endocrinologia


Serviço Nacional de Saúde
Porto


Centro Hospitalar São João
Alameda Prof. Hernâni Monteiro
4200–319 Porto
+351 225 512 100
geral@chsj.min-saude.pt
http://portal-chsj.min-saude.pt/

Central de Consultas
+351 225 512 266
+351 225 512 375

Consulta de endocrinologia: Dr. José Castedo

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Fora do SNS (hospitais e clínicas privadas)
Lisboa

Pelviclinic
Avenida do Brasil 200 - r/c Esq
1700-079 Lisboa
+351 21 848 46 98
+351 21 848 46 99
http://www.pelviclinic.pt/

Consulta de endocrinologia: Dr. Pedro Freitas

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Cirurgia

Serviço Nacional de Saúde

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Fora do SNS (hospitais e clínicas privadas)
Porto

Hospital da Arrábida
Praceta Henrique Moreira, 150 
4400-346 Vila Nova de Gaia
223 776 800
geral@hospitaldaarrabida.pt
http://www.hospitaldaarrabida.pt/

Consulta de cirurgia plástica, reconstrutiva e estética: Drª Augusta Cardoso

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Lisboa

Hospital de Jesus
Travessa Arrochela 2, 
Lisboa 1200-032 Lisboa
+351 213 934 700
geral@hospitaldejesus.pt
http://www.hospitaldejesus.pt/

Central de Consultas: +351 213 934 750
consultas@hospitaldejesus.pt

Dr. João Décio Ferreira
http://www.joaodecioferreira.com/

Voltando ao Ativo

Passou-se quase um mês sem que eu tenha escrito nada para este blog. Nem nos 1001 rascunhos que tenho abertos peguei. Para mim é algo estranho, uma vez que este blog tem sido um hobbie que me consome uma parte significativa do meu tempo desde que o iniciei. 

É engraçada a forma como comecei a sentir falta de cá escrever. Quando comecei a escrever aqui fi-lo mais como forma de passar o tempo antes de conseguir iniciar a minha transição clínica. Ler e escrever sobre o assunto fazia-me sentir menos só, como se fizesse parte de algum tipo de "comunidade" e estivesse a contribuir para a mesma. À medida que o tempo foi passando, fui ficando mais exigente comigo próprio em relação ao que escrevia e fui-me apercebendo da minha própria falta de conhecimento sobre imensos temas. 

Quando escrevo alguma peça nova para o blog, tento sempre reunir informação e informar-me sobre os assuntos que abordo (mesmo quando se tratam de artigos de opinião, gosto sempre de ver as várias opiniões e tentar compreender os vários lados de um argumento). É uma tarefa cansativa, muitas vezes acaba por atrasar o desenvolvimento dos meus textos mas no final acaba por ser bastante positivo. Neste momento, a quantidade de texto que leio é muitíssimo maior em relação à quantidade de texto que escrevo sobre um determinado tópico. Tem sido ótimo não só do ponto de vista intelectual, mas também como forma de crescimento pessoal através da troca de experiências, opiniões e informação (na primeira pessoa).

No entanto, nem sempre tenho paciência para o fazer, e durante as últimas semanas ando sem grande cabeça para escrever textos adequados para este blog. Acho que estou numa altura em que questões pessoais relacionadas com a transição esgotam a maior parte da minha disponibilidade psicológica para lidar com assuntos relacionados com questões trans. Para quem tiver curiosidade sobre o que se tem passado, podem visitar um outro blog que tenho onde documento a minha transição de uma forma mais pessoal. 

Entretanto, vou começar a reiniciar o hábito de escrever aqui (mesmo que não publique, a lista de rascunhos do blog tem estado demasiado estática). Stay tuned.

Glossário de Cenas

Esta página serve como referência rápida sobre vários termos que vou usando ao longo do blog. As definições que aqui se encontram não são exaustivas ou absolutas e estão abertas a discussão. 

Se tiverem sugestões de mais palavras para incluir, sugestões de melhoramentos, ou se quiserem esclarecimentos em relação a alguma das palavras aqui contidas, fiquem à vontade para me contactarem.


(uma nota em relação à palavra "oposto": em algumas definições uso a expressão "género oposto", estando subentendido que existe uma oposição entre apenas dois géneros. Eu não acredito neste tipo de binarismo absoluto de género, mas a sociedade em geral enforça esta ideia, o que acaba por se manifestar nas palavras que usamos e nas definições das mesmas. Há palavras cuja existência parte logo do pressuposto que só existem dois géneros, tornando-se impossível defini-las sem referenciar um género "oposto" porque as definições são referentes à realidade em que estamos inseridos, que não reconhece mais géneros além dos dois "feminino/masculino". Portanto, uso a palavra "oposto" apenas quando não encontro uma forma melhor de definir algumas das palavras, não sendo minha intenção ignorar ou negar a existência de mais géneros além dos dois tradicionalmente aceites na sociedade em que estamos inseridos)

Androginia: expressão de género que não é claramente masculina ou feminina [ver: Expressão de género]

Binário de género: sistema de classificação de géneros no qual só existem duas classificações possíveis e mutuamente exclusivas: género feminino ou género masculino. É o sistema mais amplamente aceite na sociedade atual.

Bloqueadores de puberdade: medicação usada para parar a puberdade em crianças ou jovens adolescentes. Os bloqueadores de puberdade inibem temporariamente a produção de hormonas sexuais e o desenvolvimento dos órgãos reprodutores. Não confundir com inibidores hormonais [ver: Inibidores hormonais, Estrogénio, Testosterona]

Características sexuais primárias: elementos do corpo de um indivíduo que estão diretamente relacionados com funções reprodutoras (pénis, testículos, vagina, útero, ovários, etc)

Características sexuais secundárias: características que surgem num indivíduo quando este atinge a puberdade; são diferentes para indivíduos do sexo masculino ou feminino, embora não intervenham diretamente na reprodução (pêlo facial, mamas, voz, etc).

Cirurgias de reconstrução genital: conjunto de intervenções cirúrgicas que têm como objetivo modificar os genitais de uma pessoa de forma a que estes se assemelhem em função e aparência aos genitais associados ao sexo com o qual a pessoa se identifica. Não existe apenas uma única cirurgia, mas sim um conjunto de cirurgias, técnicas e opções que podem variar de acordo com as necessidades de cada pessoa [ver: Transição clínica]

Cisgénero: sinónimo de cissexual. Indivíduo que se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. 

Cis: diminutivo de cisgénero ou cissexual. [ver: Cisgénero]

Cisnormatividade: enviesamento social e legal a favor das pessoas cisgénero; assumção de que as identidades de género das pessoas cis são mais legítimas e reais do que as das pessoas trans e de que as pessoas cis são superiores às pessoas trans. [ver: Cisgénero, Trans]

Coming-Out: sinónimo de "sair do armário". Expressão que significa revelar a orientação sexual ou identidade de género a outras pessoas. Pode também significar a revelação a outras pessoas da nossa condição como trans (caso tal não seja óbvio). 

Cross-dresser: indivíduo que, por gosto, prazer ou entretenimento, usa roupas associadas ao género oposto ao género com o qual se identifica. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Papéis de género]

Despatologização: ato de despatologizar. Quando usado sob a forma "despatologização trans" refere-se a uma ideologia e movimento (não formalmente definido) que reivindica a cessação da patologização das pessoas trans, a retirada da transsexualidade dos manuais de doenças psiquiátricas e o abolimento da necessidade de um diagnóstico clínico para dar acesso à transição clínica. [ver: Disforia, Transição clínica]

Disforia: sinónimo de "descontentamento" ou "insatisfação". Quando usado sob a forma "disforia de género" refere-se aos sentimentos de descontentamento e/ou dissociação em relação ao sexo ou ao género associado ao sexo que foi atribuído à nascença de uma pessoa. É o fator motivador principal das pessoas que fazem a transição. É também o nome do atual disgnóstico que se faz às pessoas trans que queiram iniciar a transição clínica [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Drag: performance durante a qual um indivíduo usa roupas, acessórios e adota maneirismos (geralmente de forma exagerada) associados ao sexo oposto ao qual se identifica. As performances de drag incluem cross-dressing, mas nem todos os cross-dressers fazem performances de drag. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Cross-dresser]

Estrogénio: grupo de hormonas sexuais associadas ao sexo feminino. São produzidas principalmente pelos ovários e, em menores quantidades, pela glândula suprerrenal, fígado ou outros tecidos. O estradiol, um dos tipos de estrogénio, é a hormona mais usada na terapia hormonal feita pelas mulheres trans [ver: Terapia hormonal]

Expressão de género: manifestações externas do género de um indivíduo. Podem tomar a forma de estilos de roupa, maneirismos, posturas, nome próprio, pronomes, etc. Servem para comunicar à sociedade o nosso género (podendo estar, ou não, de acordo com os papéis de género que uma dada sociedade atribui a cada um dos géneros). [ver: Papéis de género, Identidade de Género, Género] 

FTM: Female-To-Male. Sinónimo de homem/rapaz trans. [ver: Homem/rapaz trans]

Genderqueer: termo usado por algumas pessoas que não se identificam com nenhum dos dois géneros tradicionalmente aceites socialmente (homem ou mulher). Também usado por indivíduos que rejeitam por completo o binário de género e se recusam a definir-se com base neste. Pode ser usado (consoante a pessoa) como sinónimo de género não binário. [ver: binário de género, Género não binário]

Género: localização de um indivíduo relativamente aos eixos da identidade de género e sexo. [ver: Identidade de género, Sexo] 

Género não binário: categoria de género que não se enquadra dentro dos dois géneros pré-definidos pelo sistema de género binário em vigor na sociedade atual. Os indivíduos que pertencem a um género não binário não se conseguem identificar como nenhum dos dois géneros de forma exclusiva ou de todo, podendo até rejeitar por completo o sistema binário e definirem-se independentemente dos dois referenciais binários [ver: Binário de género, Genderqueer]

Homem/rapaz trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo feminino, mas que se identifica como pertencente ao sexo masculino. Sinónimo de FTM. [ver: FTM]

Identidade de género: identificação pessoal, subjetiva e autonomamente determinada que cada indivíduo tem relativamente ao seu género. Pode, ou não, estar de acordo com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença [ver: Sexo atribuído à nascença, Papéis de género, Género].

Inibidores hormonais: medicação usada para inibir o efeito das hormonas sexuais. São usados, principalmente, durante a terapia hormonal feita pelas mulheres trans para bloquear a ação da testosterona. Não confundir com bloqueadores de puberdade [ver: Bloqueadores de puberdade, Estrogénio, Terapia hormonal] 

Intersexo: indivíduo portador de diferenças congénitas nas características sexuais físicas (relativamente às características associadas ao sexo masculino ou feminino). Pode manifestar-se como variações cromossómicas, variações na expressão genética, variações hormonais ou nos órgãos reprodutores do indivíduo. (adaptado de: Organization Intersex International - What is intersex? )

Marcador de sexo: referência, em documentação variada ou formulários, ao sexo atribuído (ou re-atribuído) a um indivíduo. Em Portugal apenas são permitidos os marcadores M (masculino) ou F (feminino). [ver: Transição legal]

MTF: Male-To-Female Sinónimo de mulher/rapariga trans. [ver: Mulher/rapariga trans]

Mulher/rapariga trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo masculino, mas que se identifica como pertencente ao sexo feminino.

Orientação sexual: refere-se ao(s) género(s) pelo(s) qual(is) uma pessoa se sente atraída. Não tem qualquer intervenção da identidade de género de uma pessoa. [ver: Identidade de Género]

Papéis de género: conjunto de características, traços de personalidade, gostos ou estilos associados (e culturalmente impostos) a um género. Variam muito consoante a localização geográfica e temporal de uma dada sociedade/cultura. [ver: Género]

Queer: rótulo que pode englobar qualquer variação da orientação sexual, identidade de género, expressão de género ou vivência que, de alguma forma, rompa com as normas e pressupostos da sociedade em relação à forma como as relações inter-pessoais (principalmente afetivas, românticas e/ou sexuais) são vividas. Devido à abrangência extrema deste rótulo, é impossível defini-lo de forma mais concreta.

Sexo: sistema de classificação tendo como base características geno ou fenotípicas de um indivíduo. Os indivíduos podem ser classificados, geralmente, como sendo do sexo masculino ou feminino. 

Sexo atribuído à nascença: refere-se à classificação que é imposta a um indivíduo, no momento do seu nascimento, como pertencente ao sexo masculino ou sexo feminino. Esta classificação é feita, na maior parte dos casos, com base na aparência dos órgãos genitais visíveis externamente. 

Perturbação de identidade de género: nome do diagnóstico que se fazia formalmente às pessoas trans que queriam iniciar a transição clínica. Este termo ainda é usado por alguns profissionais de saúde, apesar de já ser considerado desatualizado, tendo sido substituído pelo termo "disforia de género" [ver: Disforia, Transição clínica]

Terapia hormonal: utilização de hormonas em contexto clínico/terapêutico. É bastante comum entre a população transsexual, sendo usada com o objetivo de desencadear mudanças físicas que aproximem o corpo da pessoa ao corpo correspondente ao género com o qual a pessoa se identifica. 

Testosterona: hormona sexual associada ao sexo masculino. É secretada principalmente pelos testículos e, em menores quantidades, pelos ovários e pela glândula suprarrenal. É a hormona usada na terapia hormonal feita pelos homens trans [ver: Terapia hormonal]

Trans: diminutivo de transgénero ou transsexual. Normalmente (mas nem sempre) usado como sinónimo de transgénero.[ver: Transgénero, Transsexual]

Transfobia: medo, aversão e/ou intolerância em relação a pessoas trans ou percecionadas como tal. É o principal fator responsável pela discriminação e violência dirigida a pessoas trans.

Transgénero: termo abrangente que inclui qualquer pessoa que, por qualquer razão, não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Pode, ou não, fazer algum tipo de transição [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Transição: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de aliviar a sua disforia e poder viver como um indivíduo pertencente ao género com o qual se identifica. Pode envolver etapas clínicas, sociais e/ou legais. [ver: Trans, Disforia, Transição clínica, Transição legal, Transição social]

Transição Clínica: conjunto de etapas clínicas feitas no âmbito de uma transição. Pode incluir apoio psicológico, intervenções hormonais, intervenções cirúrgicas ou outro tipo de procedimentos médicos que tem como objetivo aliviar a disforia de uma pessoa trans. [ver: Transição, Terapia hormonal, Cirurgias de reconstrução genital, Disforia]

Transição legal: mudança de nome próprio e do marcador de sexo no registo civil, obtenção de um novo assento de nascimento com o nome corrigido e modificação de quaisquer documentos que tenham de ser atualizados com o nome e/ou marcador de sexo corrigidos. [ver: marcador de sexo]

Transição social: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de poder viver socialmente como uma pessoa pertencente e aceite socialmente como pertencente ao género com o qual se identifica. Pode incluir a adoção de um novo nome próprio, mudança dos pronomes usados para se referenciar a si própria, mudanças na aparência, estilos de roupa, maneirismos (de forma a ficarem congruentes com os papéis de géneros associados ao género com o qual a pessoa se identifica), etc. [ver: Papéis de género]

Transsexual: indivíduo que não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Frequentemente descrevem sentir disforia de género e fazem algum tipo de transição com o objetivo de aliviar essa disforia. [ver: Sexo atribuído à nascença, Disforia, Transição]


O T é silencioso, mas não ausente

Com o aproximar do mês de junho, recomeçam os debates em torno das marchas do orgulho e, um bocado "de arrasto" ao tema, do ativismo LGBT. Ultimamente, a maioria das conversas que tenho tido à volta deste tema prendem-se com o sentido que faz (ou não) incluir questões relativas à identidade de género num movimento que, 99% das vezes, fala apenas em questões relativas à orientação sexual.

A inclusão do "T" na sigla "LGBT" é motivo de debate já há bastante tempo. Não é minha intenção entrar por aí neste momento, mas fica aqui mais um tema para a minha crescente pilha de "temas a abordar no futuro". 

Independentemente dos motivos que levam a que o T esteja associado ao resto do movimento LGB, um facto é que essa associação existe, embora seja na maior parte das vezes apenas simbólica. A grande maioria das associações e coletivos LGBT na realidade dão apenas atenção aos primeiros 3/4 da sigla e lembram-se do "T" quando é conveniente para a sua agenda ou para mostrar que são "inclusivos". Isto torna-se óbvio nos discursos e iniciativas dessas entidades, que são quase exclusivamente dirigidos à população LGB de tal forma que parece que nem sequer se lembram que o T lá está. Na maior parte dos casos nem sequer chega a ser uma exclusão ativa do T, é simplesmente um enviesamento na forma como as pessoas pensam, algo quase inconsciente, que leva a que a sigla LGBT seja usada como sinónimo de "gays e lésbicas" (a população bissexual é também frequentemente deixada de fora). Por exemplo, quando divulgam estudos dirigidos à população LGBT, mas depois dizem que estão à procura apenas de "homens ou mulheres homossexuais", ou quando tiram conclusões sobre a percentagem de "pessoas LGBT" que estão fora do armário usando um questionário que lhes perguntava apenas sobre a sua orientação sexual. 

Este tipo de atitude aparece não só nestes momentos mais "pequenos" e aparentemente menos significantes, é algo transversal a todo o movimento e ativismo LGBT. Esquecem-se do T na hora de reivindicar direitos e no planeamento de outro tipo de atividades. Quando se lembram, muitas vezes esquecem-se de perguntar às pessoas T exatamente quais são os direitos que precisamos de reivindicar ou o que é que gostaríamos de ver nos eventos. O resultado disto é uma representação, quando não totalmente ausente, distorcida (e por vezes até antagónica) da população trans em espaços LGBT. 

Depois há o outro lado da moeda: a representação do T é má porque as pessoas T não se fazem representar. É raríssimo encontrar pessoas trans em posições relevantes dentro das associações e coletivos LGBT. Há quem argumente que isto é o que está na origem de todo este problema, no entanto eu acho que isso é estar a pôr as coisas do avesso. Não é tanto a ausência de pessoas trans que causa uma má representação no ativismo - o que acontece é que a maioria das pessoas trans não encontra aquilo que precisa nas associações LGBT, portanto nunca ganham interesse em envolver-se no trabalho das mesmas. Este é um sentimento que vejo com bastante frequência entre pessoas trans. Eu próprio sinto isso muitas vezes.

Quando estava a começar a procurar informação e ajuda para iniciar a minha transição, os primeiros sítios onde procurei foram associações e coletivos LGBT. Nunca cheguei a encontrar a informação que precisava nesses locais. Consegui ir fazendo alguns contactos úteis, mas a informação que precisava não estava facilmente acessível nem fazia parte das ferramentas e know-how dessas associações. 

Por alguma razão, fui mantendo contacto com essas associações (penso que uma boa parte da razão para tal foi uma tentativa de permanecer em negação em relação à minha identidade de género, descartar o problema como sendo apenas uma questão de orientação sexual) até aos dias de hoje. Neste momento, trabalho junto da rede ex aequo, estou envolvido em alguns dos seus projetos e faço parte da atual equipa da direção. Este trabalho tem sido um desafio interessante em vários sentidos, mas há algo que começo a reparar e que me tem feito pensar: há pessoas trans dentro da rede ex aequo, estão é escondidas. 

Há cerca de um ano atrás, em conversa com uma amiga, ela congratulou-me por ser a primeira pessoa trans a fazer parte da coordenação de um grupo local da rede ex aequo. Hoje em dia, teria de a desmentir: já houve outras pessoas trans em coordenações de grupos locais antes de mim. O problema era que essas pessoas não eram assumidamente trans. (aliás, eu próprio estive nessa situação em tempos: coordenava um grupo local mas ainda me apresentava no feminino)

Eu só me apercebi disto quando essas pessoas vieram ter comigo e me contaram que eram trans mas que nunca tinham dito nada a ninguém, em parte porque nunca tinham conhecido mais ninguém trans nem sabiam bem por onde começar a abordar o assunto (mesmo dentro da própria associação). Também já tive outras pessoas que, não fazendo parte de nenhum projeto da associação, me confidenciaram que eram trans, mas que também não sabiam o que fazer e não encontravam aquilo que precisavam na associação. 

Um fenómeno curioso que também tenho notado é em relação ao fórum da associação. Quem o visitar fica com a ideia que há uma ou duas pessoas trans por lá (isto se conseguir encontrar os tópicos onde as questões trans são abordadas). Costumam ser sempre as mesmas pessoas a levantar esses assuntos e a responder aos poucos pedidos de apoio que vão surgindo de longe a longe. Por outro lado, quem espreitar na minha caixa de entrada de mensagens privadas, vê um cenário bastante diferente. Por esta altura a minha caixa de entrada está repleta de mensagens trocadas com pessoas trans que, apesar de não participarem no fórum, andam por lá à procura de apoio. Também surgem alguns emails enviados para o email geral da associação a pedir apoio na vertente trans, mas são em menor número. 

Isto leva-me a ter de reforçar a importância de:
1) haver pessoas visivelmente trans, e acessíveis, dentro das associações LGBT
2) haver sensibilidade para não alienar as pessoas trans que já andam nas associações LGBT

(uma nota sobre a  expressão "visivelmente trans": não me refiro a ter de haver pessoas que sejam publicamente trans, mas sim a haver alguma forma de identificar pessoas trans dentro dos espaços e eventos da associação. Por exemplo, eu faço questão em identificar-me como trans no fórum e dou "carta verde" aos meus colegas dos vários projetos da associação para que revelem que sou trans a outras pessoas caso isso seja relevante no contexto das atividades da associação. No entanto, fora da associação, a minha transexualidade pode permanecer privada)

Ou seja, é importante, antes de pedirmos às pessoas trans que se mostrem, criar um ambiente que seja convidativo a que elas se mostrem. É importantíssimo não descurar as questões trans, não só para "chamar" e manter essas pessoas nas associações, mas principalmente porque, provavelmente, elas já cá estão. O facto de permanecerem escondidas é um sintoma da falta de preparação e sensibilidade que a maioria das associações tem em relação a estas questões. 

Não sei se posso assumir (mas vou assumir na mesma) que algo semelhante se passe em outras associações LGBT. As pessoas trans andam por lá, mas estão bastante relutantes em fazerem-se ouvir.

Download: Guia Binders

Desde que o publiquei, o post "Marterpost: Binders" tem sido, consistentemente, o post que recebe mais visitas deste blog.


Por esse motivo, decidi tornar o conteúdo desse post mais facilmente acessível e partilhável offline, transformando-o num guia que podem descarregar em formato pdf (o link encontra-se no final deste post). A versão pdf foi revista e expandida (o post original deverá ser atualizado em breve) e será atualizada à medida que mais informação e/ou correções forem aparecendo. 

Se detetarem algum problema com os links de download, deixem aqui um comentário!


Download:
Guia Binders v.1 [pdf] - [preview]


Perguntas Frequentes (Parte 2): Narrativas Padrão e Outras Inquietações

Aqui está a 2ª parte da série "Perguntas Frequentes". Podem consultar a 1ª parte, referente a questões mais ligadas à transição clínica e legal, aqui

Só depois de ter acabado de redigir este post é que me ocorreu que a ordem dos posts das "Perguntas Frequentes" devia ter sido ao contrário. Este contém mais perguntas vindas de pessoas que ainda estão na fase de questionamento e descoberta da sua identidade, só avançando para a transição propriamente dita (que é o tema da primeira parte desta série) mais tarde. Mas pronto, agora fica assim.

Também me lembrei que, sendo um homem, frequento maioritariamente espaços para homens trans. Podem haver questões que surjam com mais frequência entre as mulheres trans, mas eu nao tenho acesso a isso porque não costumo frequentar espaços exclusivamente femininos. Portanto acho importante deixar esta nota e reconhecer o enviesamento na minha perceção do que são as perguntas mais frequentes.



Comecei a pedir às pessoas para mudarem o nome e pronomes que usam comigo, mas sinto-me mal/constrangido quando o fazem. O que é que isto significa?
Significa que velhos hábitos são difíceis de ultrapassar. Depois de passarmos uma vida inteira a sermos tratados por um nome, é estranho de repente isso mudar. Podemos estranhar o novo nome (mesmo sendo um nome que nós próprios escolhemos), podemos sentir que as pessoas só o usam para nos "fazer o favor", podemos sentir que é algo forçado e que estamos a ser um inconveniente para as outras pessoas. Tudo isto é normal e passa com o tempo, à medida que nos habituamos. 
Normalmente as pessoas que colocam esta questão estão preocupadas porque pensam que isto pode significar que, na realidade, mudar o nome foi um erro e que não são mesmo transexuais. Isto pode corresponder à realidade em alguns casos, caso não se sintam bem com qualquer um dos passos da vossa transição, parem e pensem bem se é aquilo que vos faz sentir bem antes de avançar mais. No entanto, na maioria dos casos que vejo, é apenas uma questão de insegurança e dificuldade em ultrapassar o hábito do antigo nome. Passado algum tempo as pessoas já me dizem que afinal está tudo bem e que se sentem mal é quando alguém lhes trata pelo nome anterior.


Não planeio fazer qualquer modificação aos meus genitais. Será que sou mesmo trans?
relacionada com:
Ainda não modifiquei os meus genitais, mas consigo ter relações sexuais/masturbar-me, ter prazer e atingir o orgasmo. Significa isto que na realidade não serei mesmo trans?
ou, mais genericamente:
Eu não rejeito por completo o meu corpo. Serei mesmo trans?
Sim, é possível estarmos bem com os nossos genitais (ou outras partes do nosso corpo) e ser transexual. Ao contrário do que é divulgado em quase tudo o que é sítio, ser transexual não significa que odiamos o nosso corpo, ou que sintamos que estamos no "corpo errado". Há pessoas que se identificam com este tipo de narrativa, mas não é uma regra, e há cada vez mais pessoas trans que parecem rejeitar este tipo de descrição para si próprias. Este tipo de ideia continua a ser reforçado hoje em dia porque é uma forma "fácil" de a população cis compreender e normalizar a nossa existência - é mais fácil dizer que as pessoas trans estão no corpo errado do que admitir que nem todas as pessoas encaixam nas expectativas anatómicas do que é um homem ou uma mulher. É o mesmo problema associado à palavra "disforia" que é descrita como um "ódio ao corpo", quando na realidade é algo mais complexo e com mais tons de cinza do que isso.
Na realidade, cada pessoa trans tem a sua própria relação com o seu corpo. Há quem sinta que realmente está num corpo totalmente errado, mas também há quem não rejeite por completo todas as características sexuais primárias ou secundárias. 


Eu tenho gostos muito femininos/masculinos, será que sou mesmo um homem/mulher trans?
Os nossos gostos pessoais nada têm a ver com a nossa identidade de género. É possível um homem gostar de usar vestidos cor-de-rosa e uma mulher entender imenso de mecânica automóvel. Esse tipo de papeis de género é algo completamente artificial e que não revela nada sobre a nossa identidade nem retira legitimidade à nossa masculinidade ou feminilidade. Não há nada de errado em gostar de coisas que a sociedade define como sendo do "sexo oposto", e não é por sermos transexuais que temos de obedecer a essas regras artificiais e arbitrárias. 


Tenho imensas dúvidas em relação a aquilo que preciso (ou não) na transição. Sinto que essas dúvidas retiram legitimidade à minha identidade. Serei mesmo trans?
Esta é das questões que mais me faz ferver o sangue - não por causa da pessoa que colocou a pergunta, mas pelo o que levou a pessoa a ter esta dúvida. Não, ninguém é "menos" trans por ter dúvidas. Ter dúvidas é extremamente normal e expectável, e é horrível existir este mindset de que nós temos de ter 100% de certeza de tudo o que precisamos para nos sentirmos "legítimos". Ter dúvidas, por si só, pode ser algo que nos consome e aterroriza durante este processo, mas pior que isso é começarmos a questionar a nossa própria identidade porque "não é suposto" termos dúvidas. É normal ter dúvidas em relação à nossa identidade, em relação à terapia hormonal, em relação às cirurgias, em relação a qualquer passo do processo de transição. A transição é algo sério e que muda a nossa vida, por vezes de forma irreversível - estranho seria se não tivéssemos dúvidas! Duvidar é bom, faz-nos pensar, ponderar bem e procurar as melhores soluções para os problemas. 
Portanto, se tiverem dúvidas, não se sintam inibidos. Falem com as pessoas, procurem informação e mantenham a mente aberta para as respostas que forem descobrindo. 


Quando era criança não sabia que era trans/não insistia com os meus pais que pertencia ao sexo oposto/tinha comportamentos típicos do género que me foi atribuído. Serei mesmo trans?
Nem todas as pessoas trans sabem que o são desde a infância. Normalmente este "estereótipo" da pessoa que sabe que é trans e que reza a deus para que lhe cresça (ou caia) a pilinha desde os 5 anos é apenas isso - um estereótipo. É algo que aparece em quase tudo o que é reportagem ou documentário sobre o assunto porque é muito mais fácil criar empatia por uma criança (cuja transexualidade é vista como algo inquestionavelmente inato e inocente) do que por um adulto (que é visto como um pervertido ou mentalmente perturbado). Já vi também algumas pessoas trans a confessarem que, embora não saibam desde pequeninas, dizem às pessoas o contrário numa tentativa de tentar ser mais facilmente aceites pelas pessoas à sua volta. Portanto, este é um estereótipo que parece conservar-se a si mesmo, não por corresponder à realidade, mas porque as pessoas confirmam-no mesmo que não se identifiquem com ele. 
Tudo isto para dizer que não, não é por não sabermos ou não insistirmos com os nossos pais desde crianças que deixamos de ser transexuais. 


Tenho medo que os médicos e psicólogos não me deixem avançar para a transição. Devo mentir-lhes para que me facilitem a vida?
Não. Mentir aos profissionais de saúde nunca é uma boa ideia e acaba por ser contraproducente. Existem relatos de casos em que os médicos se revelaram uns enormes idiotas e atrasaram imenso a vida a algumas pessoas mas, felizmente, esses relatos parecem ser cada vez menos e as alternativas cada vez mais. Os relatos que vejo de casos de médicos-bestas envolvem sempre o médico a "avaliar" a pessoa de acordo com critérios absurdos de masculinidade ou feminilidade, o que significa que a única forma de os persuadir seria criar uma fachada enorme que correspondesse ao que esse médico entende que é um homem ou mulher "a sério". Caso não tenham mais nenhuma alternativa, então façam o que tiverem a fazer para ultrapassar esse médico. No entanto, ao faze-lo estão a colaborar com uma pessoa que não tem o vosso melhor interesse em mente e que, caso um dia precisem mesmo da ajuda dele, provavelmente não a terão. Muito melhor será desistirem desse médico e procurarem outro. Hoje em dia já não vivemos tão isolados uns dos outros, é mais fácil encontrarmos informações sobre outros médicos e sobre opiniões dos utentes em relação aos mesmos, não precisamos de nos (nem devemos) prender a maus profissionais de saúde. 


Estou à espera para começar a terapia hormonal há imenso tempo. Há alguma alternativa que possa tomar enquanto espero?
Esta pergunta muitas vezes vem associada a "remédios caseiros" ou "suplementos naturais" que dizem aumentar os níveis de testosterona ou estrogénio da pessoa. Eu não sei até que ponto esses suplementos realmente fazem o que dizem, mas mesmo que tenham algum efeito esse será residual e nunca se comparará aos efeitos da terapia hormonal. E, provavelmente, serão caros. O melhor é não gastar dinheiro e expectativas com esse tipo de alternativas.


Posso, legalmente, usar o WC concordante com o género com o qual me identifico?
Em Portugal não há nenhuma lei que regule esta questão. O ideal para escolher o WC onde vamos é usar senso comum. Quem é visto pelas outras pessoas, consistentemente, como o género com o qual se identifica poderá frequentar espaços específicos do género com o qual se identifica (ex: as pessoas vêm-me como um homem, portanto eu posso ir ao WC masculino sem problemas). No entanto, se a maioria das pessoas não vos vir como pertencentes ao vosso género, entrar num WC concordante com o vosso género pode ser perigoso.


Ás vezes as pessoas (amigos, familiares) fazem-me perguntas invasivas. Como é que respondo a isto?
Responde da forma que te sentires mais confortável. No entanto tem em conta que, lá por sermos transexuais, não temos a obrigação de sermos um recurso de informação sempre disponível para as outras pessoas. Temos as nossas próprias reservas e limites de paciência para responder e explicar as nossas vidas ou escolhas a outras pessoas. Nós não temos de nos justificar a toda a gente, não temos de ter a validação de toda a gente nem temos de ser ativistas se não quisermos. Portanto, cabe a cada um decidir que informação quer revelar sobre si próprio ou sobre a questão da transexualidade em geral. 

Perguntas Frequentes (Parte 1): Processo Clínico e Legal

Já faz alguns anos desde que comecei a interagir com outras pessoas trans, maioritariamente via online. A maioria dos locais que existem são locais de apoio e inter-ajuda, sítios onde as pessoas podem colocar as suas dúvidas e expor problemas que tenham relacionados com a sua transição. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que algumas questões surgem com mais frequência que outras. Vou deixar aqui uma compilação das perguntas e dúvidas que vejo mais vezes colocadas, em nenhuma ordem em particular.

Nota: este post está dividido em 2, um com questões mais "práticas" referentes ao processo clínico e legal, e outro com questões mais relacionadas com a identidade da pessoa ou com a forma como cada um experiencia a sua vida como pessoa trans.
Este post refere-se aos aspetos práticos da transição. O segundo post chegará dentro dos próximos dias (*) O segundo post pode ser lido aqui



Como é que é o processo clínico? E como é que o inicio?
O percurso de cada pessoa pode variar de acordo com as necessidades de cada um mas, no geral, segue uma ordem do tipo: avaliações, hormonas, cirurgias.
A primeira coisa a fazer para iniciar tudo é marcar uma consulta de sexologia num hospital ou clínica que ofereça esse serviço. Para tal, servem hospitais e clínicas privadas ou, caso queiram ir pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), precisam de ser referidos para lá por outro profissional de saúde (um médico de família, por exemplo).


No SNS, os hospitais que têm consultas de sexologia são:
- em Lisboa: Hospital de Sta Maria, Hospital Júlio de Matos
(podem encontrar mais alguma informação aqui)


O que se segue são consultas de sexologia clínica com um psicólogo e/ou um psiquiatra para avaliar a vossa situação pessoal, fazer as avaliações psico-técnicas necessárias e, após ser concluído o diagnóstico, é-vos dado o relatório e facilitado o acesso aos passos seguintes.

Normalmente o passo seguinte (ou em simultâneo com as avaliações, em alguns casos) é a terapia hormonal. Para tal, precisam de ir a um endocrinologista. Este pode pedir-vos um ou dois relatórios; caso peça dois, estes têm de ser elaborados por duas equipas diferentes. Após alguns exames fisicos e análises, é-vos receitada a medicação necessária para a terapia hormonal (testosterona no caso dos homens, ou estrogénio e inibidores de testosterona no caso das mulheres) e podem começa-la de imediato.

Depois de tudo isto, vêem as cirurgias. Dependendo da cirurgia que querem e do vosso cirurgião de eleição, os timmings e requisitos podem variar. Por exemplo, há quem faça mastectomias sem exigir que a pessoa esteja a fazer terapia hormonal, e há quem só as faça após um tempo definido (ex: 6 meses) após o início da terapia hormonal. Cada cirurgião tem os seus critérios e as suas razões. O ideal nesta fase é procurar informação sobre as opções que têm e entrar em contacto direto com os cirurgiões para tirar as dúvidas que tiverem. 

Esta "ordem" não é universal. Há quem faça algumas partes do processo por outra ordem, há quem "salte" passos, há quem nunca faça alguns deles. A transição (os procedimentos e os timmings entre eles) deve ser moldada às necessidades de cada um.


O que é que preciso de fazer para mudar de nome?
Precisas de ter nacionalidade portuguesa, ser maior de idade e ter um diagnóstico de "perturbação de identidade de género". São esses, basicamente, os requisitos impostos pela atual lei de identidade de género. Os dois primeiros pontos são fáceis, a parte do diagnóstico é que costuma causar alguns problemas. A lei exige que apresentemos um relatório clínico que comprove esse diagnóstico, sendo que o relatório tem de ser subscrito por, pelo menos, um médico e um psicólogo. Isso significa que temos de andar em consultas e fazer as avaliações que nos exigirem, até que a equipa que nos acompanha considerar que já podemos mudar de nome; este passo pode ser fácil ou não, dependendo muito da situação pessoal de cada um e dos profissionais de saúde que nos acompanham.

A lei também menciona um requerimento de alteração de sexo e nome próprio, mas esse documento, normalmente, pode ser elaborado pelo pessoal da conservatória onde forem. 

Tendo esse diagnóstico feito, basta pegar no relatório (que vos deve ser dado pela equipa que vos acompanha), dirigirem-se a qualquer conservatória do registo civil e fazem o pedido, que deve ser respondido dentro dos 8 dias seguintes.


Que cirurgias é que tenho de fazer para poder mudar de nome?
Nenhuma. A lei de identidade de género não menciona, em local nenhum, a necessidade de cirurgias ou outras intervenções clínicas. Só precisas mesmo de ter o relatório que comprove que tens um diagnóstico de "perturbação de identidade de género".


O que é que preciso para iniciar a terapia hormonal?
Precisas de ter acesso a um endocrinologista e, pelo menos, uma avaliação concluída. Alguns endocrinologistas exigem duas avaliações, outros apenas uma. Caso sejas encaminhado para endocrinologia diretamente das consultas de sexologia, não deves ter de te preocupar com isso, uma vez que essa informação deve chegar ao endocrinologista facilmente. 


Quanto tempo é que demora entre o início do processo e a terapia hormonal?
Depende muito de caso para caso. O maior fator de atraso costuma ser as avaliações com a equipa de sexologia (ou, no caso do SNS, as filas de espera que podem durar meses). Sem a autorização dessa equipa, não podemos avançar. Há quem consiga concluir essa etapa em poucos meses, há quem demore até 2 anos. Felizmente, a convenção de nos obrigar a esperar 2 anos começa a desaparecer, mas ainda vejo algumas pessoas a dizer que tiveram de passar por isso recentemente. 


Quanto tempo dura a terapia hormonal?
Não existe tempo limite para a terapia hormonal. Para a maioria das pessoas, é algo que dura a vida inteira. As razões para isto são: 
1) só assim é possível manter todos os efeitos masculinizantes ou feminilizantes, uma vez que há efeitos que revertem caso paremos a terapia hormonal;
2) caso optemos por remover os gónadas (ovários ou testículos), torna-se imperativo continuar a terapia hormonal, uma vez que sem ela o nosso corpo fica desprovido de qualquer hormona sexual, o que pode ter consequências graves para a nossa saúde a médio e longo prazo.


A medicação da minha terapia hormonal é injetável, quem é que me pode dar a injeção?
Qualquer pessoa que tenha treino para dar injeções intramusculares pode ajudar-vos neste aspeto. Normalmente, as pessoas dirigem-se a:
) centros de saúde, onde podem marcar consultas de enfermagem;
) quartéis de bombeiros: já vi pessoas a dizer que lá também o fazem, algumas pessoas reportam que não pagam nada, outras dizem que pagam um preço simbólico pelo serviço;
) familiares: quem tem médicos ou enfermeiros na família resolve o problema facilmente;
) elas próprias: há quem peça a algum profissional de saúde que lhes ensine a fazer as injeções em casa e, depois de algum treino, fazem-nas sem intervenção de mais ninguém.


O que é que preciso para fazer as cirurgias?
Como mencionei mais acima, a resposta a esta pergunta vai depender do tipo de cirurgia e do cirurgião. O ideal é falar com os cirurgiões e perguntar-lhes diretamente o que é que é preciso fazer.

No entanto, caso queiram seguir pelo SNS, vão precisar da autorização da ordem dos médicos para poderem avançar para as cirurgias de reatribuição sexual. Para tal, devem ter dois relatórios clínicos, elaborados por duas equipas de sexologia diferentes. A equipa que vos acompanha deverá ajudar-vos a fazer o pedido para a ordem dos médicos.  


Quanto é que tenho de pagar durante o processo?
A transição é considerada como algo necessário para as pessoas trans e, portanto, é comparticipada pelo estado português. As consultas de sexologia e as avaliações são gratuítas, assim como as consultas de endocrinologia e as cirurgias (temos de pagar as taxas moderadoras, mas tudo o resto está coberto pelo estado). 

A medicação é apenas parcialmente comparticipada, mas é barata. No caso dos homens, normalmente usa-se Testoviron Depot ou Sustenon, ambos com o preço de €4.01 por dose de 1mL (que normalmente é administrada a cada 3 ou 4 semanas - ou seja, só gastamos €4.01 a cada 3 ou 4 semanas). Existem outros tipos de medicação, nomeadamente formulações de testosterona em gel, que são mais caras (ficando a cerca de €46.36 por mês), mas são muito menos comuns.
Em relação à medicação para as mulheres, não tenho a certeza de quanto custará por mês. Uma pesquisa no site da Infarmed diz-me que uma caixa de Estrofem fica a €2.49 por mês, mas não sei ao certo se é esse que se usa com mais frequência em Portugal, nem faço ideia do que usam como inibidor de testosterona. Se alguém tiver informação sobre isso pode deixar um comentário e eu tratarei de atualizar essa info aqui. 

O que fica mais caro costuma ser a mudança de nome, que exige um pagamento de €200. É possível evitar este pagamento, caso tenham um atestado de insuficiência financeira passado pela vossa junta de freguesia.


Devo seguir pelo sistema nacional de saúde ou pelo privado?
Depende do dinheiro que tenhas disponível versus o tempo que estás disposto a esperar. Pelo SNS, o processo costuma ser bastante mais lento, as filas de espera são grandes, no entanto é quase tudo gratuito. Por outro lado, caso tenhas dinheiro para pagar consultas num hospital ou clínica privada, consegues fazer tudo com maior brevidade.




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(*) sim, eu sei que, post sim post não, digo que vou fazer outro post relacionado com aquele que estão a ler no momento. Isto tem vindo a tornar-se um vício, mas é algo que não consigo evitar. Os assuntos puxam sempre outros assuntos, e seria impraticável dar asas a todos os assuntos relacionados ou tangentes que vou tocando. Os posts que eu tenho dito que "vão ser feitos no futuro" estão, efetivamente, a ser feitos. Só que são tantos que vão aparecendo lentamente. 




Um ator finge ser quem não é, e eu finjo que não estou a ser transfóbico

Pelos vistos, vai sair um novo filme este ano a contar a história de Lili Elbe, uma mulher trans dinamarquesa que foi a primeira pessoa (da qual há registos, pelo menos) trans a fazer, com sucesso, uma cirurgia de reconstrução genital. A forma como algumas pessoas estão a falar do filme como sendo "um filme sobre a primeira trans" mete-me imensa comichão por vários motivos, mas outro pequeno grande pormenor deste filme é algo que, infelizmente, ainda se vê demasiado e que acaba por anular (ou danificar significativamente) os benefícios que este tipo de representação nos poderia dar: a personagem é representada por um homem cissexual.

Seguindo as pisadas recentes de "Dallas Buyers Club" ou da série "Transparent", "The Danish Girl" é mais um filme onde uma mulher trans é representada por um homem cis. Eu podia passar o resto do post a elaborar as razões pelas quais eu acho isto bastante problemático (e vou fazê-lo, num outro post que tenho andado a cozinhar há algum tempo e que vai ser publicado quando estiver pronto), mas para já vou só fazer uma nota sobre as reações às criticas que estas escolhas de atores costumam receber.

Normalmente, quando confrontados com todos os problemas que esta dinâmica de "ator a fazer de mulher trans" levanta, as pessoas tentam defender-se dizendo que as críticas não fazem sentido porque, como atores, o trabalho deles é precisamente interpretar um papel de alguém que não são (neste caso, interpretar o papel de uma mulher). Isto não explica a razão de não terem escolhido uma mulher para interpretar... uma mulher (que por acaso é trans). Um ator ou atriz vai estar sempre a interpretar uma personagem que não é, isso faz parte da definição de "ator" mas, normalmente, os atores ou atrizes não são escolhidos ao acaso. Costuma haver um processo de seleção e, depois disso, o ator/atriz considerado mais "apto" para o papel, fica com ele. Porque é que, aparentemente, nenhuma mulher é considerada como uma boa escolha para fazer o papel de uma mulher trans? E porque é que, quando a personagem não é trans, subitamente afinal as mulheres já podem representa-la e raramente são escolhidos homens para o fazer? (normalmente quando um homem é escolhido para fazer o papel de uma mulher cis, o filme é alguma comédia parva e a escolha é feita pelo valor "cómico" da coisa, porque é hilariante ver um homem vestido de mulher, aparentemente).

No caso deste filme em particular, Eddie Redmayne (o ator que interpreta Lili Elbe) tenta justificar esta situação dizendo:

"But one of the complications is that nowadays you have hormones, and many trans women have taken hormones. But to start this part playing male you’d have to come off the hormones, so that has been a discussion as well. Because back in that period there weren’t hormones."

Isto, além de me por a pensar num passado hipotético em que realmente não existiam hormonas antes do século XX (a humanidade seria toda composta por diabéticos pré-puberescentes - cheira-me que há aqui algures um plot para um filme de sci-fi), está incorreto e continua a não ser uma justificação satisfatória. Estão a tentar convencer-nos que é impossível pegar numa mulher e, recorrendo a todas as técnicas de maquilhagem/preparação/magia hollywoodesca/etc, fazer com que ela tenha um aspeto masculino. Que a única forma de o fazer seria administrar hormonas masculinas às atrizes. Subitamente, toda a conversa de "um ator finge ser quem não é" é deitado pela janela fora, porque é impossível uma mulher conseguir fazer o papel de um homem (ou, neste caso, de uma mulher trans pré-transição). No entanto, um homem consegue fazer o papel de uma mulher, com muita mais facilidade e sem nunca sequer serem mencionados os efeitos das hormonas masculinas ou femininas. 

Em conjunto com esta mentalidade, vem também o "argumento" do "mas somos todos pessoas, independentemente do género, tu é que estás a ser sexista!" - que ignora por completo o facto de a crítica ser dirigida não só àquele filme/série/whatever em particular, mas a todo este mindset que coloca homens no papel de mulheres trans na grande maioria das representações de mulheres trans. Se fosse apenas um filme a fazer isto, okay, realmente era um bocado sexista estar a obcecar com o género do ator ou da personagem. O problema é que isto é uma situação tão comum que nem entendo como é que conseguem acusar-nos a nós (quem critica isto) de sexismo - das duas uma, ou isto revela um enorme desconhecimento da realidade (e então, provavelmente, também uma falha enorme na pesquisa sobre as realidades trans, o que depois se vai manifestar numa má história, num mau guião e numa má preparação do ator para desempenhar o papel) ou é apenas uma desculpa para justificar a transfobia e transmisoginia de quem está a fazer o filme. 

Também existem alguns casos da situação contrária: mulheres cis a intrpretar homens trans. No entanto, são mais incomuns tanto porque, ao todo, as representações de homens trans são menos numerosas e porque, pelo o que tenho pesquisado, é mais comum contratarem um homem para fazer o papel de um homem trans. Este último ponto, por si só, pode gerar imensa discussão sobre a forma como as pessoas vêem as mulheres trans versus como vêem os homens trans e permite fazer alguns comentários interessantes sobre transmisoginia (e apenas misoginia de uma forma mais geral). Isto irá ser explorado num post futuro que, como já mencionei, está ainda a ser elaborado.

Contactem-me!

Apercebi-me apenas agora que não tenho qualquer meio de entrar em contacto com os leitores, além das caixas de comentários dos posts. Não dá muito jeito para manter um diálogo ou para dar resposta a quem me quer contactar de forma mais consistente do que comentários ocasionais. 

Portanto, quem me quiser contactar, seja por que motivo for (comentários gerais, meter conversa, dúvidas, sugestões, desabafos, críticas, hate mail, etc), pode mandar email para transcenas@gmail.com